dezembro 14, 2006

38-Uma família em pé de guerra

Evelyne Barros, quinze anos, estava sentada à mesa de estar, com os livros espalhados sobre a mesma. Os testes finais seriam aplicados naquela semana e ela estava com a cabeça a ponto de estourar, tentando concentrar-se ao máximo, para entender aquele assunto de química.
Aline, treze anos, irmã de Evelyne, estava ali perto arrumando a árvore de natal com sua mãe, a doutora Marta. Eram quase nove horas da noite e tudo estava calmo. Pedro, de dezesseis anos, o mais velho dos três adolescentes da família, estava no ensaio do Grupo Jovem da igreja.
Algo na árvore de natal chamou a atenção de Eve. Aquele laço vermelho do tamanho de uma melancia, não ficava nem um pouco bem, no topo da árvore.
- Aline, não acha que esse laço combinaria melhor na sua cabeça? Está ridículo aí em cima!
Aline olhou indignada para ela.
- Pois eu acho que combinaria muito mais, se fosse colocado bem no meio do seu nariz, no culto de natal, sua tonta! Ele vai ficar aqui onde eu coloquei!
- Ô pirralha!...
- Meninas! Vocês vão começar essa briga de novo? – Marta começou a perder a calma. – Estava demorando! Eu estranhei essa paz... Toda hora, todo minuto, vocês três brigam, brigam!
- Mãe, ela começou! – Queixou-se Aline.
- Você quer que eu deixe essa coisa ridícula aí na árvore? Quando meus amigos vierem aqui vão morrer de rir!
- Pois eu não ligo, Eve! Não tô arrumando a árvore para os seus amigos gostarem. Eu...
- Chega! Chega, você duas! Se continuarem a brigar, meto a mão nas duas, ouviram? Não pensem que porque cresceram, não apanham mais! Será possível que não se pode ter paz nessa casa?
Marta, estressadíssima, estava à ponto de jogar aquela bola de natal na cabeça das duas filhas. Todo dia, toda hora, aquela família vivia em pé de guerra. Ela não agüentava mais! Eve voltou a atenção para os livros, mas antes lançou um olhar para Aline com uma mensagem clara: “Isso vai continuar lá no quarto...” Aline por sua vez, agüentava firme a provocação da irmã e começou a afiar a língua para responder às prováveis implicações de Eve.
Pouco tempo depois, chegaram Pedro e o irmão Augusto, o chefe da casa. Pedro não cumprimentou ninguém e foi direto para o quarto.
“Aí tem coisa”, pensou Eve, prendendo um risinho irônico.
Augusto estava mesmo de cara fechada. Nem beijou Marta direito, já foi dizendo:
- Moleque irresponsável! Matou o ensaio pra ficar namorando...
As duas meninas fizeram cara de espanto.
- O Pedro? Com quem, pai?
- Aquela filha do irmão José. Na hora do ensaio! Quando chega o domingo, fica de cabeça baixa, enrolando porque não sabe cantar...
Eve e Aline estavam às gargalhadas. As duas nem pensaram duas vezes e correram para o quarto do irmão.
- Ui, ui, ui... A Jane, Pedro? Oh, Jane, Jane! Amor de minha vida...! Aline provocou.
- Vocês duas parem de encher! Saiam do meu quarto, AGORA!
Eve simplesmente ria e aderia à provocação da irmã.
- Eu vou meter a mão! Saiam daqui! Ameaçava Pedro.
A porta bateu com força.
- Essa porta batendo de novo! – Marta estava outra vez irritada. Quantas vezes vou
ter que pedir pra vocês não baterem a porta?!
- Foi o Pedro, mãe – As duas meninas saíram de fininho.
Quando Eve estava guardando os livros para dormir, o pai apareceu com a
Bíblia embaixo do braço. Ela tentou correr.
- Eve! Guarde os livros e volte para o culto doméstico. Augusto não queria discutir.
Aline ouviu lá do quarto e se jogou na cama.
- Nem adianta fingir, Aline! – Eve acendeu a luz do quarto – Se eu tenho que ouvir o culto doméstico, você também tem!
Pedro também não conseguiu fugir. E lá estava a família toda reunida na sala. Augusto colocou os óculos e iniciou a leitura da Bíblia. Assim era a família Barros, freqüentadora assídua da igreja. Incapaz de seguir na prática, os preceitos bíblicos.
O natal chegou e todos, devidamente arrumados, foram para a igreja. O pensamento de Aline estava nos presentes que estariam debaixo da árvore de natal quando chegassem do culto. Eve pensava no impacto que seu vestido novo estava causando entre as outras garotas... e em Mateus. Pedro passava a mão no cabelo de vez em quando, para conferir se o gel ainda estava lá e arriscava um olhar na direção de Jane, a namorada.
Quando o pastor Fabrício começou a pregar, fez-se silêncio no templo. Era uma mensagem de reflexão.
“Irmãos, Jesus não veio ao mundo apenas para que comemorássemos essa data com presentes, roupas novas, festa...” – dizia o pastor – “Jesus veio ao mundo para trazer esperança. Esperança que hoje não existe mais para muitos de vocês que estão aqui neste culto. Mas Jesus fez-se menino e nasceu entre nós, para nos trazer paz, amor e perdão. Eu quero que vocês meditem nestas palavras, no significado real de cada uma delas. Você diz que ama a Deus e recebeu o seu Filho no seu coração. Mas existe paz na sua vida? O amor de Deus está realmente no seu coração? Você consegue perdoar?”
Aos poucos, as palavras inspiradas do pastor foram tocando nas pessoas que o ouviam. Uma atmosfera diferente envolveu o lugar. Aqui e ali, lágrimas escorriam nos rostos dos irmãos. O Espírito de Deus calmamente foi tocando, falando em cada coração.
E alcançou Eve, que já não pensava no vestido novo. Alcançou Aline e Pedro, Augusto e Marta. Dos lugares diferentes onde estavam assentados, um procurou pelo outro, com o olhar. O pastor prosseguiu:
“Existe perdão no seu lar? Jesus veio ao mundo para perdoar os nossos pecados e nos sarar. Através Dele, você também pode perdoar. Se o amor de Deus está em você, você deve ministrar perdão. Nesta noite, não saia daqui sem antes se acertar com o seu irmão. Como festejar o natal, guardando rancor no coração? Estaremos sendo hipócritas!”
Havia tanto para perdoar entre Augusto, Marta e seus filhos!
“Saia de seu lugar agora e em nome de Jesus, vá até aquela pessoa a quem você sente que precisa liberar e receber perdão. Não saia desse templo sem perdoar o seu irmão.”
Um pequeno murmúrio envolveu a igreja. As pessoas foram saindo de seus lugares e procurando umas pelas outras. A família Barros se encontrou e juntos, abraçados, pediram a graça de Deus para viverem em união. O perdão foi liberado e o Espírito de Deus os envolveu.
Mais tarde, diante da árvore de natal, Eve, Aline, Pedro e seus pais viviam a expectativa de iniciarem o ano novo baseados no perdão, aprendendo a amar-se mutuamente e a praticar o que o Filho de Deus, em sua imensa graça veio trazer ao mundo.


* * * *

37-Promessas de ano novo

Viviane sentiu seu coração bater forte quando escutou o barulho dos fogos de artifícios, anunciando e festejando a chegada de mais um ano novo. Para a garota de 16 anos, o ano 2000 prometia muitas coisas. Pelo menos, ela desejava realizar algumas coisas que não conseguira no ano anterior.
A adolescente que estivera ajoelhada juntamente com as pessoas de sua igreja, levantou-se com os olhos marejados de lágrimas. Era difícil segurar a emoção. “Estamos no ano 2000!”, pensava ela eufórica. Sua mãe abraçou-a com força, tão emocionada quanto a filha. Depois foi a vez de abraçar o pai, o irmão mais velho, os amigos...
Enquanto orava, minutos antes, ela fizera algumas promessas ao Senhor. Prometera dedicar mais tempo para Deus, participar mais das programações da igreja... mais que tudo isso, ela prometera que seria fiel ao Senhor. Era difícil prometer aquilo, porque como jovem, sabia que as tentações seriam muitas. Mesmo assim, ela prometeu que durante aquele ano ela faria suas escolhas baseadas na vontade do Mestre. “Ao menos vou tentar, Senhor!” ela sussurrara.
Ela também fizera alguns pedidos. Queria ser uma ótima aluna no Colégio, melhorar o seu relacionamento com os pais e com o irmão mais velho... queria que o Senhor lhe desse forças para manter suas promessas e começar o ano dando o melhor de si em tudo o que fizesse.
Ela avistou um rapaz alto, muito bonito aos seus olhos, e acrescentou rápido: “Ah, sim, Senhor! Quero pedir mais uma coisa... Me ajude a conquistar o Isaque, sim? Quero dizer... Se for da tua vontade, claro!”
Quando o rapaz caminhou em sua direção para cumprimentá-la, ela percebeu que deixar algumas escolhas na mão do Senhor, às vezes seria difícil... Algumas decisões poderiam até partir o seu coração. Mas fora uma de suas promessas naquela noite e promessas são promessas! Sabia que o Senhor honraria todo esforço que fizesse para agradá-lo.

* * * *

36-Um natal feliz

O carro corria velozmente pelas avenidas da cidade. A pequena Paula deixava-se levar por pensamentos tristes e amargos repetindo para si mesma, que a felicidade não existia.
Quando o carro parou em frente a casa de sua tia, ela olhou em volta e sentiu uma lágrima deslizar em seu rosto. “Se mamãe me amasse!”
Tia Ana abriu a porta, e, ao vê-la chorando abraçou-a.
- O que foi, meu anjo?
Paula olhou para ela e permaneceu em silêncio enquanto aconchegava-se mais no abraço carinhoso que a bondosa senhora lhe oferecia.
- Onde está sua mãe? Perguntou Ana.
Paula sacudiu os ombros, como a dizer: “que importa?” Provavelmente estaria trancada no quarto, um pouco mais feliz por tê-la distante. Ana compreendeu o silêncio da sobrinha. Abraçou-a mais fortemente e a fez entrar.
“Pobrezinha”, pensou. “Tão criança e já sofre tanto!” Pensou em sua irmã, Laura, que entregara-se totalmente ao desespero e à depressão, logo após a morte do marido. Ela não conseguia suportar sua própria filha que, aos doze anos, precisava tanto de seu amor. Por isso, a enviara para morar com a irmã, a pretexto de passar algum tempo sossegada.
Os dias se passavam, e Paula parecia adaptar-se à nova situação. Sorria com mais freqüência e não escondia seu carinho e admiração pela tia, que a tratava tão bem e com tanto amor.
Certo dia, porém, Ana encontrou-a pensativa e triste.
-Sabe, tia, às vezes eu sinto uma angústia no meu peito. Queria ser feliz, mas não consigo, mesmo aqui, com você. Tenho medo de que as pessoas não se importem comigo, não me amem, não me queiram por perto...
- Minha querida, não fique assim – falou tia Ana – Há alguém que se importa com você.
Paula sorriu.
- É você!
- Não, não sou eu. Na verdade, me importo muito com você, e a amo, mas a pessoa de quem estou falando importa-se muito mais.
Paula ia perguntar-lhe quem era essa pessoa, quando a campainha tocou. Imediatamente, Ana lembrou-se de que iria receber visitas e a conversa não pôde ser concluída. Eram as amigas de Ana e a pequena Beatriz, que também viera. A neta da senhora Olívia morava nas proximidades. Ana saudou-as alegremente e apresentou Paula a Beatriz. As duas puderam entender-se rapidamente e não tardou para que se tornassem inseparáveis. O fato de Beatriz morar próximo à casa de Ana, contribuía muito. Além disso, havia a igreja aos domingos e outros dias da semana. Mas nem sempre Paula gostava de acompanhar sua tia à igreja.
Foi na igreja que Paula ouviu falar sobre Deus e descobriu ser ele, a pessoa de quem tia Ana lhe falara um dia. Mas não gostava mais de conversar com sua tia sobre isso. Desde nova, ouvia sua mãe reclamar de Deus, dizer que ele não existia. Ela também não gostava dEle. “Não deve ser um Deus bom. Se fosse, minha mãe não me trataria assim, e seríamos felizes”. Ana tentou conversar com Paula sobre o Deus de amor, criador de todas as coisas, mas a garota só ficava mais aborrecida e não queria ouvir. Tudo o que sua tia podia fazer, era continuar orando e levando-a para a igreja.
Ana fazia visitas freqüentes à sua irmã. Nessas visitas, falava de Deus para ela, lia trechos da Bíblia e insistia para que Laura fosse à igreja. Numa dessas visitas, Ana chegou a perguntar, se Laura sentia-se bem, longe de sua única filha adolescente. Mas Laura continuou apática, enquanto suspirava sua resposta:
- Um pouco intranqüila, minha irmã. Você deve saber que eu realmente não desejei que as coisas fossem assim. Infelizmente, desde que meu marido morreu, Paula tem se tornado uma garota insuportável.
- Não ponha a culpa de seus problemas em sua filha, Laura! – Ana suplicou –Isto é errado. Sua filha é apenas uma criança passando para a fase da adolescência e precisa de você. E você, Laura, além do amor de sua filha, precisa de Deus. Já lhe ocorreu, que se deixar Cristo entrar em seu coração e dirigir a sua vida as coisas serão diferentes?
Laura não respondeu. Como sempre, mudou de assunto e quando Ana insistiu, queixou-se de forte dor de cabeça. Ana retirou-se triste, mas com a certeza de que agora o assunto estava nas mãos de Deus. Ela continuaria orando e esperando.
Faltava um dia para o natal. As orações de Ana estavam surtindo efeito, pois Paula agora demonstrava maior interesse pelas coisas de Deus. Fazia perguntas e gostava de ouvir os comentários e histórias da Bíblia. Para felicidade de Ana, também Laura estava começando a ouvir seus conselhos com mais atenção.
O dia vinte e cinco de dezembro amanheceu. As ruas, que desde a véspera estavam enfeitadas, agora pareciam reluzir ainda mais em sua beleza. A noite aproximando-se, tia Ana, Paula, Beatriz e D. Olívia sentaram-se na sala, e tia Ana, como sempre fazia naquela horário, tomou a Bíblia nas mãos e leu o trecho que fala do nascimento de Jesus. Com seu jeito prático e didático de falar, explicou a Paula o verdadeiro sentido do Natal.
Paula sentiu-se profundamente tocada pelo amor de Jesus, com Seu jeito sublime. Ana então, perguntou-lhe se ela não gostaria de abrir seu coração para Cristo.
- Gostaria muito, tia Ana. Mas pioraria minha situação. A senhora sabe que a minha mãe detesta os crentes...
- Bem, se é isto que a preocupa... – e tia Ana fez um ar de mistério – vou dizer-lhe o que antes seria uma grande surpresa: sua mãe telefonou dizendo que vem nos visitar esta noite, e irá à igreja conosco. Isso não é tudo: ela aceitou o meu conselho, o Espírito de Deus operou em sua vida, e o resto você vai saber quando ela chegar.
Paula quase não conseguiu acreditar. Como recusar então, o convite de amor de um Deus que podia tudo, inclusive, transformar sua mãe? Ela sentiu que podia crer nas promessas de Deus. Ele jamais a desampararia.
A campainha tocou. Paula abriu a porta, e foi com lágrimas nos olhos que deixou-se abraçar por sua mãe. Diante daquele quadro feliz, em que mãe e filha se reconciliavam, Ana ergueu a voz em oração e todos puderam sentir o olhar e a presença irradiante do filho de Deus.

35-Viagem sem volta

Ronaldo e Douglas, do 1º ano B, sentaram-se próximos à quadra de vôlei para lancharem. Douglas deixou-se divagar em pensamentos, enquanto observava as meninas da manhã no treino.
“Puxa, Merci! Você poderia ter feito melhor!”
Merci era sua colega da igreja. Ela acabara de perder um saque.
- Vamos lá, cara! Prove isto.
Douglas voltou-se distraidamente para pegar o sanduíche que o amigo estava lhe oferecendo.
- Hã? - Aquilo não era um sanduíche. Ron estava lhe mostrando uma outra coisa.
- Você vai se “amarrar”, cara!
- O que é isso?
Seu “passaporte”. Muito melhor que um sanduíche. Vamos lá, é só tragar...
- Tô fora!
- Quê?!
- Isso é droga, cara. Não quero saber desse lixo.
- Qual é cara? Que caretice!
Douglas levantou-se, visivelmente irritado.
- Tô fora, Ron. Isso vai acabar com a sua vida. Eu quero viver, e de preferência, bem longe disso.
Douglas virou as costas e saiu. Estava meio desnorteado e bastante surpreso com sua própria raiva. “Deus, eu nem acredito. Meu melhor amigo metido com drogas!”
Ele entrou no primeiro corredor e andou sem rumo alguns instantes. A cabeça parecia querer explodir, num turbilhão de pensamentos soltos, desorganizados. “Acho que pisei na bola com o Ron”, refletiu em seguida. “Mas que raiva me deu! O cara metido com drogas!”
Alguém agarrou-o pelo braço. Era o Ron, bastante assustado.
- Fica frio, cara. Se você não gosta desse lance, vamos esquecer, tá legal?
Douglas encarou-o com sentimentos mistos de raiva, tristeza e compaixão.
- Ron, você pode optar por coisas melhores.
Ronaldo sorriu incrédulo, com um brilho opaco no olhar.
- Não se preocupe. É só curtição. Eu uso quando quero. Pra fugir um pouco das coisas... Você sabe.
Ele sabia. A mãe do amigo era uma alcóolatra e os pais estavam separados há seis meses. Não era nada fácil. Douglas encarou-o sério, tomando uma decisão.
- Ron, Deus pode te tirar dessa. Ele é o melhor amigo que qualquer pessoa pode ter...
- Sem essa cara! Bíblia pra mim, não. Eu sei o que eu tô fazendo. Esquece, tá legal?
Ele foi saindo rápido e Douglas tentou detê-lo.
- Ron, escute...
- Chega! Ron gritou e apressou os passos.
- Jesus te ama, Ron! Deus pode te tirar dessa!
Ronaldo tapou os ouvidos e começou a correr. A voz de Douglas continuou insistindo, gritando.
- Jesus te ama, Ron...
Mas ele já dobrara o corredor, desesperado. O toque de aulas soou e outros alunos encheram o corredor em direção às salas.

***

Douglas foi até o bebedouro e tomou um gole de água. Estava chateado.
- Oi, Douglas, como vai?
Era Merci.
- Oi, Merci. Estou legal. – a voz dele indicava o contrário. – Como foi o treino?
- Bem. O meu time ganhou. Você vai hoje à noite para a igreja?
- Vou sim – ele fez uma pausa – Minha aula já deve ter começado. Até a noite, então.
- Até lá!
Douglas correu para a sala de aula. Procurou por Ron. Ele não estava, e não havia sinal de suas coisas.
“Estraguei tudo!”
À noite, no culto, Douglas estava mais calado que o habitual. Quando a programação terminou, ele procurou o pastor Jonas, líder da mocidade, e teve uma longa conversa.
- Ore por ele, aconselhou o pastor. Procure aconselhá-lo, mas lembre-se: nem sempre é possível salvar um amigo das drogas. Ajude-o até onde puder e não canse de interceder a Deus por ele.
Douglas fez-lhe muitas perguntas e no final da conversa, oraram por Ron.
Ronaldo faltou à aula no dia seguinte. Douglas ligou para ele assim que chegou em casa. O próprio Ron atendeu, mas fingiu que era o irmão mais velho.
- O Ronaldo saiu, disse ele.
- Ron, é você? Douglas reconheceu-lhe a voz. A linha ficou muda por instantes.
- Você ligou pro número errado, cara! Gritou Ron com voz rouca. E desligou.
Douglas segurou o telefone mudo nas mãos. “Senhor, eu estou tentando!”
Ronaldo faltava muito às aulas e agora Douglas sabia o porquê. Uma vez encontrou-o por acaso, quando saía do colégio. Estava com os olhos muito vermelhos, um cigarro na boca e cheirava mal. Ficou tão espantado quando viu o amigo, que iria correr, se Douglas não o detivesse a tempo.
- Como vão as coisas? Douglas tentou mostrar-se descontraído.
- Tudo “maneiro”, na boa – Ron falava muito nervoso, olhando de um lado para outro, como se estivesse sendo perseguido. Depois olhou desesperado para o amigo.
- Cara, você tem um dinheiro aí? É pouco. Sabe, a minha mãe não anda legal e eu tô sem grana...
Douglas sentiu-se encostado à parede. Sabia que Ron estava desesperado pela droga.
- Não – Respondeu devagar – Gastei o dinheiro no lanche.
A expressão suplicante de Ron morreu em seu rosto. Ele cuspiu no chão e encarou o amigo com uma expressão amarga.
- Você tem sim, cara. Não quer me dar. Grande amigo você é...
Ele soltou uma série de palavrões e Douglas sentiu que as coisas não estavam nada bem.
É melhor ir embora. O Ron tá doidão...
Mas em seu peito sentia um impulso. Vontade de ajudar, tirar o Ron daquela situação. Segurou o amigo pelos ombros.
- Sai dessa vida, Ron! Existem pessoas que podem te ajudar. Jesus te ama!
- Me larga, Douglas. Eu já disse: pára com essa coisa de Deus! Me deixa, cara!
Ele empurrou Douglas e se foi.
Ron continuou faltando aula. Agora era raro ele aparecer. As notas caíram. Já se ouviam boatos por todo o colégio. Finalmente, ele abandonou os estudos. Douglas por sua vez, tornara-se apático, pensativo, angustiado. “Eu tenho que tirar o Ron dessa!”
- Tudo o que você pode fazer agora é orar – Merci aconselhava.
- Eu tentei, Merci. Fui à casa dele várias vezes, tentei conversar, levei os trabalhos do colégio... Eu tentei falar de Jesus para ele... Mas ele não me escuta, não liga!
Ele olhou abatido para Merci e sussurrou:
- Eu não conheço mais o Ron.

***

Quando o telefone tocou, Douglas reconheceu a voz rouca de Lúcia, mãe de Ronaldo. Sentiu um frio na espinha.
- Ele está no hospital. Não sei o que deu naquele inútil! Tentou se matar e agora insiste em ver você – ela disse, a voz distante.
“Inútil” - a voz ecoou na mente de Douglas enquanto se dirigia ao hospital. “Pode ser para a sua mãe, amigo. Mas não para Deus, não para mim” Depois ele ficou pensando que aquela pobre mulher também era uma escrava do vício. “Os dois precisam de Jesus”.
Douglas encontrou o amigo num leito de hospital, sozinho. Os pulsos estavam enfaixados. Ron voltou-se com os olhos cheios de lágrimas.
- Cara, eu me matei!
- Você está bem, Ron. Os médicos já contornaram a situação.
- Não. É por dentro... Eu tô acabado!
Douglas sentia um nó apertando sua garganta.
- Ron, ainda há esperança. Jesus te ama, ele pode te ajudar!
- Pára de falar de Deus, cara! Eu já disse...
Dessa vez Douglas não iria deixar passar a oportunidade. Ele falou de Jesus, mesmo com a recusa do amigo, mesmo sentindo as lágrimas molharem seu próprio rosto. Ron escutou, mas não quis tomar qualquer decisão.
Douglas foi para casa. Pela manhã cedo o telefone tocou. Era Merci.
- Douglas, como você está?
- Mais ou menos. Ontem visitei o Ron, falei de Jesus pra ele. Vou visitá-lo daqui a pouco e...
- Não, Douglas. Eles o encontraram esta manhã... E-ele está... Morto. A mãe do Ron me ligou e pediu que eu lhe dissesse. Sinto muito...
- Morto? Mas... O que aconteceu?
- Não sei, ela não soube me explicar direito.
- Estou indo para o hospital – respondeu Douglas engolindo em seco. A mente distante, muito longe.
Mas quando desligou o telefone ele se deixou cair na cadeira, com a cabeça entre as mãos. Lembrou-se do rosto assustado do amigo enquanto dizia: “Cara, eu me matei...”
Ele esmurrou a mesinha do telefone . “Devia ter ficado com ele durante a noite...”
Mas agora, nada que pensasse ou fizesse mudaria a realidade. Nada traria seu amigo de volta. Ele ergueu-se devagar e dirigiu-se à porta. Agora mais que nunca, ele sabia que a droga podia se transformar numa viagem sem volta. Foi assim para o Ron.

33-Suicídio

O estampido foi ouvido em todo o colégio. Professores pararam as aulas. Alunos inquietos olharam pela janela procurando a causa do barulho. Susto, medo, curiosidade. Depois do primeiro momento de inércia causado pelo choque, a balbúrdia começou.
- Foi um tiro!
- O quê?
- Alguém atirou!
- Silêncio!
Em cada classe os professores tentavam manter a ordem. Eles mesmos assustados, preocupados, fazendo indagações. “O que terá sido?”
O barulho diminuiu e alguns professores tentaram retomar as aulas. Aos poucos, tudo voltou a ficar calmo. Um silêncio estranho, quase ensaiado encheu as salas do 1º andar. Entre uma e outra palavra do professor, era quase possível ouvir as mentes confusas dos alunos, cheios de dúvidas e excitados quanto ao motivo do suposto tiro. De onde viera? Que teria acontecido?
De repente ouviu-se um grito.
- Atiraram em alguém do colégio! – Concluiu um aluno.
- Quem disse? – Perguntou outro.
- Só pode! Não ouviu o tiro?
Ninguém mais pôde segurar os alunos confusos, que curiosos, desciam as escadas rapidamente.
- Ai meu Deus! – o gemido vinha do banheiro masculino, mas a voz era de mulher.
A turma encaminhou-se para lá. No chão, mergulhado numa poça de sangue, estava Miguel, 15 anos, aluno do 1º ano “C”. Uma arma pendia de sua mão esquerda. Estava morto.

* * *

A diretora Analisa foi amparada pelo vice-diretor que encaminhou-a rapidamente à sala mais próxima e ofereceu-lhe um calmante. Ela fora a primeira pessoa a ver o rapaz. Passava por acaso em frente ao banheiro quando escutou o tiro.
O alvoroço dos alunos querendo ver o acontecido precisou ser controlado novamente. Meninas nervosas choravam abraçadas umas às outras. Os rapazes, em estado de choque, abanavam a cabeça ainda sem acreditar. A polícia chegou e a área foi isolada.
A turma do 1º C tão logo soube quem cometera o suicídio, ficou assustada.
- Miguel?!
Um rapaz pacato, quieto, quase despercebido na turma, não fossem os olhos verdes no rosto moreno, os cabelos lisos que sacudia para afastar da testa e o sorriso que encantava com facilidade as garotas.
“Por que o Miguel se matou?”
A pergunta passeava na cabeça dos alunos. “Um cara calmo, legal, gente finíssima...”
Luis Carlos parecia mais abatido que todos. Andréa, sua colega de turma percebeu e tentou ajudar.
- Coisa triste, não? Por quê?
O rapaz sacudiu os ombros sem explicação e virou o rosto.
- Você lembra que pedi oração por ele há umas duas semanas atrás? Carlos falou.
- Lembro, sim.
- Eu percebi que ele não estava bem. Ele comentou de um problema com o pai dele. Mas sabe
como é... Como era o Miguel. Não dizia nada, só sorria, ninguém via o cara triste.
- É, eu achava legal que ele não se irritava quando os meninos pegavam no pé dele, com aquelas brincadeiras que tiram qualquer um do sério.
- Andréa, nós estávamos aqui. Percebemos a situação do cara e não nos incomodamos o suficiente. Eu me senti incomodado a semana toda para visitá-lo, conversar com ele... Mas sempre tinha alguma coisa para fazer... E agora, não há nada mais para ser feito!
Andréa ficou em silêncio e sentou ao lado do amigo. Era verdade. Ela também era crente e isso era tudo. Poucos colegas sabiam. Lágrimas escorreram também pelo rosto da garota. Em silêncio, os dois colegas de classe e irmãos em Cristo, refletiram sobre o que estavam fazendo para anunciar a luz de Cristo aos colegas que viviam em trevas.
- Vamos agir?
A pergunta de Luis Carlos era um desafio. Andréa apertou a mão do colega.
- Vamos, sim.
De mãos dadas, fecharam os olhos. Luis Carlos orou.
“Senhor Jesus, perdoe-nos por nosso pouco caso em relação à situação de nossos colegas que não te conhecem e estão perdidos nas trevas, vagando sem direção e perecendo! Senhor, nós apresentamos nossas vidas agora diante de Ti e nos oferecemos como vasos para serem usados por ti. Usa-nos neste colégio, em nossa turma, e faz-nos pregadores das tuas boas novas de salvação. Amém!”
Como resultado daquela oração, nasceu um Clube bíblico e ponto de evangelismo naquele colégio. À Luis Carlos e Andréa, uniram-se vários outros alunos de todas as turmas, que conheciam o Senhor Jesus. E o evangelho começou a ser anunciado ali.


* * * *

32-O Desastrado

O pastor Horácio vinha caminhando pelo corredor da igreja a passos largos, porém um tanto atrapalhados devido ao peso da pasta de documentos, livros e folhas soltas que tentava carregar com os dois braços que Deus lhe dera.
Para piorar a situação, não aparecera um irmãozinho para ajudá-lo desde o estacionamento, que ficava do outro lado da rua. Suando, o pastor lamentava a falta de ajuda, quando avistou Felipe, 13 anos, um adolescente membro de sua igreja. Subitamente, ele ficou rígido e um calafrio percorreu seu corpo.
“Essa não! Jesus! O Felipe?”
Incapaz de ler os pensamentos de seu pastor, Felipe só pensou que ali estava a oportunidade de ajudar o “ilustre servo de Deus”.
- A paz do Senhor, pastor Horácio! Quer ajuda?
Essa era a pergunta que o pastor temia. Mas era óbvio, que não conseguiria carregar tudo aquilo sem a ajuda de alguém. Sorriu para Felipe, apesar de todo o receio e cedeu-lhe metade do material que tinha em mãos. “Quem sabe, dessa vez, ele faz tudo certo. Ao menos essa vez!”
Felipe segurou os papéis soltos que o pastor lhe entregara, como se fossem tesouros preciosos e caminhou ao seu lado enquanto tagarelava. Subiram as escadas e passaram pela irmã Zeza, zeladora da igreja, que com um balde do lado, vassoura e pano na mão, cantava alegremente limpando o chão.
O pastor Horácio levantou a mão para cumprimentá-la, Felipe fez o mesmo, e seguiram em frente. O pastor não dera ainda três passos, quando irmã Zeza soltou um grito:
- Ai, meu Jesus! Olha “os papel” voando, pastor!
De fato, os papéis estavam voando e, um a um, caindo no chão “empoçado” da água que irmã Zeza acabara de jogar do balde. Chocado com a cena, Felipe ainda pensou em colocar uma mão na cabeça e suspirar angustiado. Mais papéis voaram e caíram na água. Um “Deus nos acuda” tomou conta do pastor e da zeladora, que desesperados, tentavam salvar os papéis molhados. Felipe quis segurar os papéis restantes com uma mão e ajudar com a outra. Mas pastor Horácio foi fulminante:
- Fique aí mesmo onde você está! Nem se mexa que pode cair mais papel!
Pobre Felipe! Ficou olhando o pastor recolher os papéis molhados em meio a um desespero terrível. O pastor passou carrancudo por ele e mandou o rapaz segurar os papéis, pelo menos até a sala do pastor Gustavo. Aí ele estaria “dispensado”. A sala do primeiro pastor ficava logo na entrada do corredor. Tão logo chegaram lá, o pastor tomou-lhe a papelada e mandou que Felipe “sumisse” da sua frente, ao menos até que ele voltasse a ter serenidade de espírito.
Felipe desceu pelas escadas, cabisbaixo e não viu o olhar da zeladora, que sentia muita pena do rapaz. Sem querer voltar pra casa, o rapaz caminhou pelo quarteirão próximo à igreja e sentou-se numa calçada. Ali meditou sobre a sua “sorte” em ser tão desastrado. Ficou pensando: “Para quê eu sirvo? Tudo o que eu faço dá errado. Sou tão desastrado...”
Incapaz de responder às suas próprias perguntas, o rapaz amparou a cabeça entre os braços e ficou abatido.
A vassoura e o balde ficaram lá, no mesmo lugar. Mas irmã Zeza não podia deixar o rapaz ir-se daquele jeito. Saiu atrás de Felipe, angustiada, o tempo todo pensando: “Pobrezinho!” Não demorou a encontrá-lo. Graças a Deus, ele não fora muito longe.
- Ô Filipe, fica assim não!
A zeladora sacudiu os ombros do rapaz, que levou um susto. Ele sorriu meio triste para ela. Felipe, no fundo corajoso, não se deixava abater muito fácil. Erguia a cabeça sempre, mesmo depois das piores trapalhadas. Todos o chamavam “o desastrado”. Mas desta vez... Logo com o pastor Horácio!
- Filipe, Deus ama você assim “mêrmo” – foi dizendo irmã Zeza – Deus vai dar um jeito nisso. Deixa você crescer mais.
- Pra quê eu sirvo hein irmã Zeza? Faço tudo errado. Tudo mesmo!
- Você ama a Deus, Filipe?
- Claro! Mas não posso oferecer nada a Ele, porque só sei atrapalhar. Nem os irmãos me querem por perto...
- Olha Filipe, se você ama Deus, basta. Ele só quer isso de você. Tem muita gente importante por aí, que sabe fazer tudo certinho, mas não liga pra Deus. Só se preocupa consigo mêrmo e com os seus “talento”. Deus tá “percurando” gente que tenha tempo pra Ele. Ele num tá “preorcupado” com os seus defeito não. Deus usa você assim mêrmo.
Felipe ficou olhando sério para a zeladora, que falava sacudindo o dedo bem no rosto dele. “Faz sentido...”, ele pensou.
- A senhora acha irmã Zeza, que desastrado assim do jeito que eu sou, Deus pode me usar?
- Acho, sim, Filipe. Foi Ele quem criou você, não foi? Então pronto. Ele sabia que você ia ser assim.
Felipe continuou pensando.
- Olhe Filipe, eu vou indo, que eu deixei o balde e as vassouras lá na escada. Pense direito nisso que eu falei e deixe de sua tristeza. Pergunte pra Deus o que Ele quer da sua vida e fique sossegado.
Felipe abraçou irmã Zeza de um pulo e a pobre mulher quase vai ao chão. Mas os dois só fizeram rir. A zeladora se foi e Felipe orou baixinho, só para Deus ouvir:
“Senhor, eu não entendo porque eu tinha que ser assim tão desastrado! Mas irmã Zeza falou que o Senhor não liga pra isso. O importante é o que eu sinto por você. Eu só queria fazer um pedido: arrume um trabalho pra mim na tua obra. Nem que o Senhor precise me transformar. Mas eu quero tanto te servir direito, fazendo tudo certo mesmo!...”
O pastor Horácio perdoou Felipe e até conseguiu achar graça no que acontecera. Os anos foram passando e Felipe, apesar de desastrado, continuava na esperança de trabalhar certinho para Deus. Já adulto Felipe tornou-se pastor. Não mudara muito, mas também já não era tão desastrado. As experiências da adolescência e juventude foram transformando-o num homem mais “ligado” nas coisas.
Felipe era muito conhecido e querido pelos outros pastores por causa do seu jeito amável e dos costumeiros tropeços que sofria ao subir nos púlpitos para pregar. Seu jeito desengonçado de andar e o modo desastrado de apertar e sacudir mãos, braços e ombros dos irmãos, num simples cumprimento, geralmente fazia a igreja rir. Mas Felipe agora era um homem, não ligava. Ele gostava mesmo era de pregar que Deus não se preocupa com nossos defeitos; que Deus quer é alguém que se disponha para Ele... Assim como irmã Zeza, que com simplicidade de palavras, levou-o a entender tudo isso.

31-Gravidez na adolescência

“Elisa está grávida!”
O burburinho espalhou-se pela igreja, entre cochichos abafados. “Pelo modo como se comportava com o namorado, só podia dar nisso”, diziam outros. Tão logo descobriu seu estado, Elisa, a garota de dezesseis anos, não muito alta, cabelos castanhos lisos e olhos brilhantes, viu-se diante de uma grande decisão. Seu mundo desmoronou. Teve que enfrentar a reação abobalhada do namorado. O rapaz não sabia o que fazer. Ser pai não era uma responsabilidade para o qual se sentia preparado aos dezessete anos. Encolheu os ombros. Se pudesse simplesmente sumir...
Elisa enfrentou os pais. Sozinha. (O namorado resolvera “passar um tempo” com os avós no interior, para refletir sobre a situação). Foi duro. Contou a verdade, chorou. Os pais ficaram chocados. Sentiram raiva. Choraram também. Depois a abraçaram. “Estamos aqui”, disseram.
Mas foi difícil encarar os amigos da igreja. Alguns até se afastaram. Elisa tinha que ser forte e optou por enfrentar a decepção com os amigos também.
Foi um momento difícil, uma prova de fogo. Havia cometido um erro, um pecado diante do Senhor, contra ela mesma e o Corpo de Cristo.
Mas agora tinha que escolher o caminho que iria seguir dali por diante. Teria que escolher entre ficar no meio do caminho e afundar ainda mais no pecado, ou levantar-se com esforço, mediante a misericórdia do Senhor e prosseguir.
Elisa confessou seu erro diante de Deus, pediu perdão e forças para suportar o que viria pela frente. O Senhor providenciou-lhe socorro. Uma amiga não desistiu de amá-la. Ficou ao seu lado, orando, ouvindo, encorajando, confortando. As professoras de Escola Dominical também a ajudaram para que se erguesse espiritualmente.
A vida de Elisa nunca mais foi a mesma. Pagou um preço muito alto, amadureceu da noite para o dia, forçada pelas circunstâncias. Enfrentou a dor do preconceito e a solidão. Mas também conheceu de perto a misericórdia do Senhor, através da Sua Palavra, do Espírito Santo consolador, e de mãos amorosas, que foram estendidas em sua direção para ajudarem-na a erguer-se e prosseguir.
* * * *
Recadão:
Sei muito bem que esta é uma realidade para muitas adolescentes em nossas igrejas. Eu mesma tive uma amiga que passou por isso. Sabe o que aconteceu? Quase todo mundo virou-lhe as costas... Nos dias de hoje ainda é assim. Em vez de ajudarmos as amigas que passam por esses problemas e cometem esses “deslizes” cada vez mais comuns em nossa sociedade, a tendência é apontar o dedo, acusar, rir da desgraça alheia e ainda virar as costas. Esse comportamento é bem o oposto daquilo que a Bíblia Sagrada ensina, não é mesmo? “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia.” (1CO 10:12) Esse versículo sim, deve ser a nossa realidade.
Hoje você é uma moça direita, na Casa do Senhor. Amém que seja sempre assim. Mas não ria de quem, independente dos motivos, não conseguiu “segurar a onda” e manter-se pura diante de Deus. Ajude alguém assim a levantar a cabeça e seguir em frente, com a certeza do Perdão de Cristo. Não empurre essa pessoa pro mundo. Se coloque no lugar dela e pense no tratamento que gostaria de receber se estivesse passando pela mesma dificuldade. Peça sabedoria a Deus e contribua para o Reino ajudando a firmar esta vida nos caminhos do Senhor. Faça sua parte. Sua contribuição pode ser bem simples: um simples sorriso, aperto de mão e abraço, muitas vezes é suficiente para trazer esperança a um coração já abatido e renovar as forças de quem se sente cansado na caminhada cristã. Pense nisso! Mas se você, neste caso, estiver passando pela mesma situação de Elisa, não desista do plano de Deus para sua vida! Levante a cabeça, peça perdão de seus pecados e siga em frente! O amor de Deus por você não se acaba por isso. Que Deus te abençoe!

30-Sonhar é possível

Wesley afastou-se dos livros por um instante e colocou as mãos na cabeça. Sentia-se frustrado diante de tantas pressões. Por alguns minutos o desânimo tomou conta de sua vida. “Estudar mais pra quê? E daí, se eu passar no vestibular?” Ele via seu futuro de uma forma sombria. A crise no País era tão grande que só conseguiria emprego onde o salário fosse o “mínimo”, pensava.
Quando pensava em Michele, seu coração apertava ainda mais. “Que poderei oferecer a ela no futuro? O rapaz levantou-se angustiado. O pensamento lhe disse para ler a Bíblia, como sempre o fazia, ao passar por momentos conflitantes. Mas naquele momento, para Wesley, até a Palavra de Deus parecia estar longe da realidade. “Tudo é possível ao que crê”, o versículo bíblico que lhe veio à mente, parecia uma frase perdida no espaço, sem sentido.
O pastor Martinho, pai do rapaz, encontrou-o cabisbaixo, tocou em seu ombro e perguntou qual era o problema. Wesley balançou os ombros frustrado.
- São tantos, pai! Mas eu posso resumir: é essa crise em nosso País, a falta de dinheiro, de futuro... A gente não pode mais planejar, sonhar...
Wesley levantou-se aflito.
- Aqui, pai. Tenho dezessete anos, tô estudando para o vestibular, tentando um emprego... Mas eu olho pra frente e vejo tudo escuro!
Pastor Martinho sorriu para o filho.
- Uma coisa de cada vez. As crises do nosso país, a falta de dinheiro, nada podem impedir alguém de alcançar seus objetivos. Você pode passar no vestibular e conseguir um bom emprego. Mas para isso você precisa se organizar, filho. Por exemplo, neste ano, por que você não prioriza seus estudos? Depois de passar no vestibular, você investe num emprego.
O pastor segurou o braço do filho, de leve, e fê-lo sentar-se ao seu lado.
- José tinha sonhos, filho. Ele nunca desistiu.
Wesley sorriu. A história de José era a sua predileta, desde garotinho. Gostava de ouvir seu pai repetí-la. Mas agora...
- O filho de Jacó teve sonhos e ninguém acreditava. Eram sonhos tão altos, mas ele cria! No auge de seus sonhos, ele foi vendido como escravo por seus próprios irmãos. Foi comprado por Potifar e deu o melhor de si como escravo. Foi caluniado e colocado em uma prisão. Ainda assim, deu o melhor de si. Foi esquecido pelos presos a quem ajudara. Mas continuou sonhando. Um dia ele saiu da prisão para ser o governador do Egito, país que o escravizara. O sonho se realizou. Se José tivesse desistido de sonhar, talvez tivesse morrido na prisão. Mas ele não desistiu.
Pastor Martinho olhou bem para seu filho e prosseguiu.
- Nós enfrentamos dificuldades na vida, Wesley. Mas a palavra de Deus é fiel. O Senhor acredita no potencial de seus filhos. Em I Jo 2.14, Paulo escreveu: “Eu vos escrevi, jovens, porque sois fortes, a Palavra de Deus está em vós e já venceste o maligno”. O nosso inimigo quer nos destruir através do desânimo, da falta de sonhos em nossa vida. Quem não sonha, não alcança, filho. É da vontade de Deus que os jovens sonhem, acreditem, vão à luta! Apresente seus sonhos ao Senhor. Com Ele, sonhar é possível.
O pastor levantou-se e bateu de leve no ombro do filho:
- Agora vou deixá-lo sozinho. Acho que você tem muito o que fazer.
Wesley olhou para os livros que deveria estudar para o vestibular e abraçou o pai.
- É... Acho que agora eu tenho que ir em frente toda a vida! Um dia vai acontecer...

* * * *

29- Devagar, querida...

Milena estava em pé junto ao espelho grande do quarto. De costas, com o pescoço voltado para o espelho, tentava mirar-se de todos os ângulos. Fez uma careta quando acabou e balançou o pescoço massageando-o com as mãos.
“Liana disse que estou em forma. Mas será que o Pedro vai notar?”
A saia curta, justíssima, fazia destacar as curvas quase perfeitas da garota de 15 anos. Ela mirou-se no espelho mais uma vez.
Milena não esqueceu um detalhe sequer da maquiagem do rosto. O batom bem vermelho, os cílios pretos e bem separados pelo rímel, a sombra azul cintilante, o blush rosado, constrastando um pouco com sua pele. Depois de contemplar-se mais uma vez, ela pegou a Bíblia e foi para a sala onde seus pais, Eduardo e Mônica a esperavam impacientes.
Milena passou rápido pelos pais, cabeça baixa, retirando um cisco inexistente dos olhos. Mas isso não impediu Mônica e Eduardo de perceberem o tamanho e o ajuste da saia da garota.
- Milena, volte aqui um minuto – o pai chamou.
- Ah, pai, estamos atrasados para o culto... – disse a garota, tentando abrir a porta do carro.
- Filha, você ouviu seu pai! – A voz de Mônica era inconfundível, mesmo soando calma.
- Já vou, já vou!
“E agora? Aposto que vão reclamar da minha saia e da maquiagem”.
Milena retornou à sala. Os pais se entreolharam atônitos com o “novo” visual da filha. Eduardo tossiu, antes de falar:
- Minha filha, que roupa e... que maquiagem é essa?
Um brilho de desafio apareceu no olhar de Milena.
- Ora, pai! É a minha roupa, e a minha maquiagem!
- Minha filha, não acha que está exagerando? Esta saia está curta e apertada demais, e esse seu rosto... está...
- Um pouco exagerado, querida! – Completou Mônica.
“A Liana disse que ficava ótimo assim, chamava a atenção mesmo...” Milena começou a sentir-se
insegura. Mas não deu o braço a torcer.
- É porque vocês estão com ciúmes. É isso! Não vê que eu cresci, pai? Não sou mais uma criança!
Se fosse a mamãe, você estaria elogiando. Pra vocês, nunca estou bem o suficiente!
Eduardo sorriu para a filha e colocou a mão em seu ombro, observando que algumas lágrimas teimavam em rolar pelo rosto da garota.
- Querida, vá devagar! Nós a amamos e queremos o melhor para você. Você é uma garota linda, maravilhosa e não precisa de recursos como esses para provar isso. Não é a saia curta que a tornará mais linda... Nem essa maquiagem pesada. O seu sorriso e o seu jeito de ser, alegre, refletindo Jesus, são muito mais atraentes!
- Mas não tem nada demais, pai! – Milena tentava enxugar o rosto, já manchado pelo rímel preto.
- Não tem nada demais, que você ponha uma roupa bonita, porém adequada, e acessórios para realçarem sua beleza mas não alterá-la. Eu sei que você está crescendo, e já não é mais criança, mas vá devagar, filha. As coisas devem acontecer no tempo certo. Viva a sua idade, o momento presente, sem querer apressar as coisas.
Eduardo abraçou a filha com carinho e tentou enxugar-lhe o rosto. Mônica aproximou-se com um guardanapo e beijou a filha também.
- Milena, é melhor você voltar ao quarto e lavar o rosto. Sua maquiagem caiu por terra em poucos minutos!
Milena concordou. Voltou ao quarto, trocou a saia, lavou o rosto e aplicou um leve pó facial. Acabara de aprender que a beleza natural, sem exageros, não desaparecia com algumas gotas de água.

* * * *

28-Férias

- Passar as férias na casa da tia Lia não tem graça, mãe – Carolina estava completamente desanimada no sofá. Com ares de tédio, abanava a cabeça pela milésima vez, como resposta às perguntas de sua mãe sobre o que ela gostaria de fazer no mês de férias.
- Na casa de tia Lia tudo tem que ficar no lugar, tenho que fazer as tarefas de casa, chegar na hora, não posso conversar com os amigos da igreja até tarde. Que férias são essas? Eu quero é me divertir!
- Pois então, fique aqui mesmo, sua chata! – a mãe de Carol aborreceu-se e foi terminar o almoço.
Carol fez uma careta, cruzou os braços e mordeu os lábios enquanto pensava numa alternativa. Grande parte da turma de adolescentes da igreja iria viajar. A maioria passaria o mês de janeiro em lugares diferentes, conhecendo gente nova, curtindo as férias. E ela? Havia um acampamento de férias, organizado por uma igreja evangélica, o mesmo para onde Amanda, sua melhor amiga iria.
É a única opção. Mas acho que vai ser um saco! Imagine, um acampamento evangélico nas férias!
Ela ficou meditando até ouvir sua mãe exigindo que a mesa do almoço ficasse pronta. Durante o almoço, Carol soltou um suspiro e anunciou:
- Vou para o Boas Novas. Pai, por favor, faça logo minha inscrição antes que termine o prazo.
Rose e Roberto, pais de Carol, pararam de mexer os talheres e sorriram discretamente.
O dia esperado chegou. Carol não conhecia o acampamento e em sua mente a única vantagem que teria em particular, era não ficar em casa, nem na casa de tia Lia, e conhecer novos amigos, quem sabe até, arranjar um namorado.
- É muito legal, dissera Amanda. Nós conhecemos muitas pessoas diferentes e visitamos muitos lugares além de nos divertirmos.
Mal chegou no acampamento, Carol levou um choque. Aquilo só podia ser quartel! Já bastavam seus pais e a igreja dizendo: “Faça isso, não faça aquilo!” Tudo tinha hora certa: café, almoço, janta, brincadeiras, passeios, local de guardar bagagem, colchão, coisas pessoais... e ainda estudo da Bíblia!
A programação era rígida em termos de organização. Havia hora para estudos bíblicos e oração. Nesses momentos, a turma de quarenta adolescentes e dez líderes, reuniam-se em círculo e discutiam textos bíblicos. Era descontraído e espontâneo, de forma que Carol acabou gostando. Também havia as aulas de teatro, dirigidas pela professora Jane, diariamente, desde o segundo dia de acampamento. Além disso, eles aprendiam músicas novas com coreografias alegres.
No final da primeira semana, com aulas puxadas de teatro, música e coreografia além do preparo espiritual, todos estavam moderadamente aptos para a surpresa. O irmão André, coordenador do acampamento Boas Novas, reuniu o grupo e disse que agora iriam praticar fora do acampamento.
- Iremos apresentar nossas peças e coreografias nas praças de nossa cidade e em locais onde algumas pessoas não podem vir até nós.
A segunda semana do acampamento foi maravilhosa; uma mistura de medo, nervosismo, alegria e ousadia. A turma foi se desprendendo e mostrando seu talento. Foi duro e cansativo, mas recompensador. Carol, que detestava andar pela rua distribuindo folhetos, passou a gostar da experiência e descobriu ainda que tinha talento para cantar.
O grupo visitou o presídio, a casa de menores, locais de shows artísticos e culturais da cidade, além do lar de velhinhos e outros locais públicos. Foi uma experiência emocionante. Assim eles falaram de Jesus, encorajaram pessoas aflitas, trouxeram uma mensagem de vida e amor para os necessitados, através da música e do teatro evangélico.
Carol estava deslumbrada! Nada a comovera mais do que conversar com as crianças de rua, conhecer suas necessidades, dar-lhes uma mensagem de carinho. Falar com os velhinhos no lar de idosos também foi uma experiência inédita para ela. Enfim, no término daquelas três semanas, Carol percebeu que havia mudado. Seu relacionamento com Deus estava mais sólido e muito diferente de antes. Seu modo de ver o evangelho e entender o “ide” de Jesus também fora modificado. A própria Carol sentia que estava diferente, transformada.
Com certeza, aquelas três semanas foram o auge de suas férias e ela curtira bastante. Percebeu que ao invés de perder tempo, ela ganhara e aprendera muita coisa. Na verdade suas férias foram um grande investimento e reviravolta em sua visão de mundo, e em seu relacionamento com os pais. Isso, eles perceberam, contentes e gratos a Deus quando a abraçaram na volta do acampamento.

27-Há tempo para tudo

Aline estava sentada debaixo de uma árvore pensativa.
“Afinal de contas, o que devo fazer?”
Estava tão indecisa! Sabia que deveria entregar sua vida a Jesus por completo e deixar que ele cuidasse de tudo, mas...
“E se Deus não souber escolher muito bem? Quer dizer... se Ele não acertar mesmo com o meu gosto?”
- Aline, Deus fez você. Ele sabe muito bem do que você gosta, o que você quer. Não precisa quebrar a cabeça! – irmã Amália explicava e ria da garota, quando conversaram da última vez.
- A senhora quer dizer que Ele vai fazer tudo por mim, escolher meu namorado...?
- Nem sempre, filha. Às vezes Deus só dá uma ajudinha; outras, Ele
interfere mesmo. Mas depende de você, do quanto você permite e aceita que Ele faça isso. É certo porém, que existem coisas que nós mesmos podemos fazer, e então, ficam por nossa conta. Por exemplo: que tipo de rapazes você prefere em sua compania? Que hábitos você aprecia mais? Que qualidades lhe chamam mais a atenção num garoto? Essas coisas básicas, particulares à sua personalidade, gostos e opções suas, você mesma pode definir. E dentro disso, já existe uma seleção para o tipo de namorado que você deseja ter. Mas Deus também pode ajudá-la nessa escolha, orientando-a e colocando perto de você a “pessoa certa”, dentro dos padrões que Ele sabe, se encaixam melhor para você. Sabe que Deus nos conhece muito mais do que nós mesmos nos julgamos conhecer. É por isso que em assunto de namoro, nunca é demais deixar que Deus a oriente, dissera Adélia, convicta.
“E agora?”
- Aqui estou eu novamente, pensando igual a uma boba debaixo dessa árvore! Murmurou Aline para si mesma.
- Se eu disser: “Senhor faça a tua vontade” e Ele tirar o Carlinhos de mim? Ou melhor, não me ajudar a conquistá-lo, “porque é melhor para mim”? Como eu fico? Eu também posso experimentar por mim mesma, se é o que eu quero de verdade, se vai dar certo ou não...
Que dilema! Há tempo Aline vinha orando, ou melhor: “exigindo” que Deus lhe desse o Carlinhos como namorado. Mas as coisas não iam nada bem pro seu lado, nesse aspecto. O rapaz aparentemente não estava interessado, e sequer olhava em sua direção. E ela roendo unhas, impaciente, esperando que Deus lhe fizesse “justiça!” Afinal, fazia uns meses que orava nesse sentido.
- Ai meu Senhor...! Esse namorado que não chega! Tô cansada, sabia? Minhas amigas não oram sobre isso, namoram, e eu fico aqui, hiper-encalhada! Jesus, tenha dó! Eu já tenho dezesseis anos!
Uma voz lá no fundo de seu coração pareceu sorrir enquanto sussurrava: “Menina, que idade avançada, hein? Até parece que já anda de bengala...!”
Aline teve que sorrir. Percebeu que exagerava. “Tudo bem, eu sou nova ainda. Mas é que para os padrões da sociedade já passei da idade de arrumar um namorado e estou perdendo tempo”.
Aí um pensamento veio à mente da garota: “E para os meus padrões?”
Aline sacudiu a cabeça.
- Jesus, a Bíblia parece tão ultrapassada, às vezes...
“Você já leu a Bíblia toda para dizer isso?”
- Bom...
Ela ficou sem fala. Pegou a sacola que jogara ao pé da árvore e retirou a Bíblia de lá.
- Tudo bem. Por onde eu começo? Quero uma resposta agora sobre este assunto. Estou zangada, Senhor!
Aline era assim mesmo, um tanto impaciente. Quando se irritava ia para debaixo da árvore e desabafava mesmo com Deus. Dizia tudo! Só que ultimamente, ela andava meio cega. Só via na Bíblia o que queria ver. Por exemplo, aquelas promessas da paz, amor, felicidade... Na hora de Ter paciência ou de fazer a parte dela, pelo menos “descansando no Senhor”, ela fazia ouvido de mercador e continuava sem resposta, sem perspectiva alguma, presa a seu único objeto de desejo.
Ela resolveu dar uma pausa naquele momento. Abriu a Bíblia irritada e decidiu que iria ler na primeira página em que abrisse, e aquela teria que ser a resposta do Senhor...
“Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu”.
A garota leu espantada o primeiro versículo de Eclesiastes 3. Mal crendo no que via, leu novamente o versículo e continuou até o versículo 8: “...tempo de amar e tempo de odiar...”
Aline esfregou os olhos tentando afastar as lágrimas. Mas não deu. Ao dar-se conta, estava chorando! Que resposta! O Senhor ouvira sua oração zangada e falara-lhe as palavras certas. Ela sorriu ao perceber que mais uma vez, a resposta de Deus era: “Tenha paciência!” Já não estava com raiva. Nem mesmo ao ouvir a palavra “paciência” pela milésima vez. Não dava pra ficar aborrecida. A presença de Deus era tão forte, tão real! Aline curvou a cabeça em reverência.
- Obrigada Jesus. Pelo menos agora eu sei que o Senhor está me escutando e sabe perfeitamente o que eu quero. Perdoe-me pela impaciência e dá-me ânimo para esperar mais um pouco.
Aline demorou-se mais um pouquinho na presença de Deus e depois levantou-se confiante de que no tempo certo, no tempo de Deus, Ele cumpriria o desejo do seu coração.

26-Posso contar com você?

Sheila entrou no quarto cantando uma música de Carlinhos Félix, e jogando os livros na prateleira. Olhou para a cama e viu a carta aberta bem em cima de seu travesseiro. Aquela letra garranchenta, cheia de altos e baixos, só podia ser de Kléber, seu irmão. Fez cara de tédio. Começou a ler e sentou-se na cama. Uma ruga apareceu na testa. Ela levantou-se rápido e recomeçou a ler com voz alta, dando voltas pelo quarto:

“Procuro um amigo. Um amigo de verdade,
que saiba perder tempo comigo e não
sinta pena pelo tempo perdido. Um amigo que
me ame e me aceite do geito que eu sou.
Posso contar com você?”

Sheila parou em frente ao espelho e se olhou por um segundo. Então, seu irmão estava mesmo se sentindo só! Ele tinha dez anos, escrevia péssimo! Mas não era culpa dele. Ninguém se preocupava em lhe ajudar a melhorar a caligrafia e a gramática. Além disso, ele sempre lhe pedia para brincar com ele, ensinar-lhe a resolver as tarefas dos livros escolares que os professores exigiam todos os dias... Que saco!
Ela já tentava ser uma adolescente normal, mesmo tentando concluir o segundo grau, mesmo cuidando da avó doente, tentando arrumar emprego porque o dinheiro que tio César enviava, dava para tudo, menos para comprar seu sapato novo.
Tanta coisa assim, e nem sobrava tempo para conversar com seu irmão sobre a escola, os amigos, a vida. Sheila lembrou-se de que em muitos momentos sentia-se sozinha. Como sentia falta dos pais! Fingia levar uma vida normal, recuperada da dor que sofrera com a morte deles. Parecia adulta demais para a sua idade. Era uma dona-de-casa autêntica e antecipada para os seus dezesseis anos. Sem os pais, com a avó doente e um irmão para cuidar, aprendera a lutar cedo pela vida. Não pensara muito em seu irmão. Parecia até, que ele não sofria, não passava por tantos problemas como os que ela costumava passar.
Havia tempo para a igreja, a Escola Dominical e para os seus alunos pequenos, um pouco mais novos que o seu irmão. Havia tempo para ouvir um pouco de música e conversar com os amigos nas horas livres. Mas não havia tempo para Kléber.
Ela olhou novamente para a carta. “Ele só quer que eu seja sua amiga. Quem, neste mundo inteiro, escolhe um irmão mais velho para ser seu amigo?” Ao pensar em seus próprios momentos de solidão, tristezas e necessidade de compartilhar esses momentos com as amigas, Sheila concluiu que podia muito bem entender seu irmãozinho.
Olhou para a sua Bíblia na cabeceira da cama e para o versículo que havia grifado, ao ler pela manhã: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo (Mc 12.31). Kléber era seu próximo. Talvez o mais necessitado de seu amor e ela sabia que podia amá-lo com toda a força do seu coração e ajudá-lo em seu momento de solidão.
A porta do quarto abriu-se e seu irmãozinho colocou a cabeça na brecha. Ela sorriu para Kléber e o encorajou a entrar.
- Vem cá, me dá um abraço! Olha, eu li sua carta. Precisa melhorar a letra. Eu vou comprar caligrafia pra você e vou lhe ensinar gramática. Ah, pode contar comigo, sim! Pro que der e vier. Amigos?
- Amigos! – E o garotinho sorriu de felicidade.

25-Perdão, amiga...

Janaína e Adriana eram inseparáveis. Estudavam na mesma escola, freqüentavam a mesma igreja, gostavam de sair juntas nos finais de semana. A amizade entre elas era assim desde a infância e parecia que nunca teria fim. Aí, quando as duas tinham lá seus treze anos de idade, o interesse pelos garotos foi crescendo. Às vezes, as duas se viam às voltas com alguns rapazes na escola e na igreja. Era tão bom conversar com os garotos! Mesmo assim, elas não se separavam. Imagina! Aí que as duas tinham assunto para conversar.
“Viu o cabelo do Felipe hoje, como estava lindo?”
“Ah, menina, eu fiquei paralisada quando o Diogo olhou pra mim...”
E a conversa rendia por horas a fio.
Um belo dia, porém, apareceu um garoto novo na igreja. Mais velho, assim... uns dezesseis anos. E muito bonitinho. Adriana ficou apaixonada por ele. “Puxa, Ína, acho que ele é o amor da minha vida.”, comentou um domingo, ao conversar com a amiga.
Janaína, de pronto, ofereceu-se para ajudar. “Vou dar um jeito de conhecê-lo e apresentá-lo a você”, disse animada. E nem esperou muito tempo, foi tentando dali, daqui, até que finalmente conheceu o rapaz. Agora, ela só vivia de papo com o Marcelo (nome do garoto). Adriana sentiu uma pontinha de medo no coração. “Será que a Ína vai conquistar o Marcelo pra mim, ou pra ela?” Mas depois ela se arrependia de ter pensado tal coisa. “A Janaína não faria isso comigo”.
Os dias foram passando. Janaína, esquecia até de ficar muito tempo com a amiga, tão ocupada que estava em ser amiga do Marcelo. Ela até apresentou o rapaz para Adriana. Mas qual! O rapaz olhava mais para a Janaína, sorria e conversava mais com ela. Para a Adriana, ele só tinha cumprimentos rápidos, quase nem notava que ela estava ali.
Adriana começou a duvidar de que algum dia o rapaz se interessaria por ela. E começou a sofrer também. Afinal, parecia que ele só tinha olhos para a sua melhor amiga! E ela, por sua vez... não despistava que também estava interessada.
De pouquinho em pouquinho, as duas amigas foram se afastando. Um dia, a Janaína chegou na igreja de mãos dadas com o Marcelo. Depois do culto, eles ficaram juntinhos, abraçados no ponto de ônibus. E Adriana vendo, com o coração dolorido, as lágrimas presas na garganta.
“Ai, Jesus, que raiva da Ína, que traicão ela fez comigo!”
Adriana chorou a noite toda. E Janaína, nem aí pra dar satisfação. Passou um mês e meio. Um dia, a Janaína chegou na igreja sozinha, e sentou lá no fundo da igreja. Adriana viu, estranhou, mas fingiu que não estava nem aí. As outras garotas da igreja, indignadas com a atitude da ex-amiga, também só aumentaram a fofoca. “Aposto que ela tomou um fora do Marcelo. Foi bem feito, quem manda ser tão oferecida?” Elas comentavam.
Adriana foi para casa grilada. No ponto de ônibus, nem quis saber da ex-amiga. No coletivo, sentou bem longe. Desceu e andou rápido pra não ter que ficar acompanhando a outra. Mas na hora de dormir, o coração estava pesado. Quando se ajoelhou para orar, só ouvia uma vozinha na consciência: “Perdoa...”
Aí, ela tratava de dormir logo, pra não ter que ficar pensando naquelas palavras. Mas a vozinha não parava de martelar na cabeça: “Perdoa...”
Na escola, ela percebeu que a amiga estava triste, sem graça. Já não era a mesma. O Marcelo, nem aparecia mais para buscar a Janaína na saída. Aí a ex-amiga voltou a se aproximar de Adriana. E Adriana num sufoco. Não queria perdoar. O que ela tinha feito, não dava pra desculpar. E os momentos de tristeza que ela passara por causa da amiga? E quando seu coração se partira? Ela nem se importara...
Mas a vozinha não a deixava em paz. “Lembra daquela pergunta de Pedro a Jesus? Quantas vezes tenho que perdoar àquele que me faz mal? Setenta vezes...”
Ah, Adriana não quis lembrar o resto. Mas a vozinha só lembrava quantas vezes o Senhor Jesus já lhe havia perdoado. Como a misericórdia e a graça do Senhor eram grandes para com ela. “Senhor, não sei se tenho coragem para isso... ela me magoou tanto!
Janaína se aproximou. Adriana estava tão pensativa, que nem percebeu. Aí já nem deu pra fugir. Janaína falou de cabeça baixa: “Perdão, amiga... Eu errei com você. E agora, percebo que nem valeu a pena. O Marcelo me achou muito criança e terminou comigo. Agora sou eu que estou com o coração partido. Não lucrei nada com esse namoro.”
Adriana olhou para a ex-amiga, perplexa. A colega continuou de cabeça baixa esperando uma resposta. Adriana viu duas lágrimas caindo no rosto dela. Lágrimas de arrependimento, tristeza.
Aí ela sentiu uma onda de amor lhe aquecendo o peito. Um carinho enorme invadiu seu coração. Ela sorriu e puxou Ina, a ex-amiga pela mão. A amiga aproximou-se chorando, soluçando, pedindo perdão. Adriana colocou a cabeça dela no colo e sussurrou: “Assim como Jesus me perdoou, eu te perdôo em nome de Jesus!”
Bastou isso. E o gozo do Senhor Jesus voltou a reinar nos dois corações.


Recadinho:
Na adolescência, é comum passarmos por situações complicadas envolvendo amigos a quem amamos tanto. Às vezes até sofremos por coisas que não valem a pena. Mas fica sempre uma grande lição: as experiências ruins nos fazem amadurecer na fé, e, muitas vezes, são livramentos de Deus para nós. Não guarde rancor. Simplesmente perdoe no nome de Jesus, e aguarde, porque o que Deus tem para fazer na sua vida, Ele vai realizar, não importa o tempo, as circunstâncias, os empecilhos. Basta você crer.
Um abraço!
Eugenia

24-Retiro de emoções

Ana Paula estava animada, ao descer do ônibus, juntamente com uma turma de jovens da igreja da qual fazia parte. Eles iriam passar quatro dias durante o período de carnaval, num retiro Espiritual. Todos os anos a igreja organizava aquele evento, sempre edificante e divertido; uma maneira muito legal de aprender mais de Deus, desenvolver a comunhão entre os irmãos e ser reavivado espiritualmente.
Mas Ana Paula estava com as emoções à flor da pele. Afinal, aquela era mais uma oportunidade de finalmente conseguir atrair a atenção de Vitor, seu grande afeto. O rapaz, de 19 anos, dois anos mais velho que ela, tratava-a com amizade, mas tudo não passava dali. Vitor sabia muito bem dos sentimentos que a jovem nutria por ele. Às vezes até, Ana achava que ele a provocava conversando animado e trocando olhares com algumas amigas suas. Ela se magoava, sentindo no peito a dor incômoda e insistente do ciúme, mas quando ele sorria para ela, esquecia-se completamente dos momentos tristes, e novamente voltava a sonhar com um futuro ao lado de seu “amado”.
Os dois primeiros dias do retiro foram animados. Muitas palestras, brincadeiras, cultos à noite. Era nesses cultos, que Ana fechava os olhos bem apertado, e suplicava ao Senhor que lhe desse uma resposta definitiva sobre o rapaz. Afinal, fazia um ano que estava apaixonada e o rapaz, sem se decidir.
Foi no domingo à noite, que o Pastor Douglas resolveu tocar no assunto. O coração suspenso, ansioso, Ana preparou-se para ouvir um daqueles sermões do tipo: “Jovem, não desista, se essa pessoa for a que o Senhor escolheu para você, não importa a demora, ela vai ser sua!” ou quem sabe até o pastor profetizasse: “Ana, eis que o rapaz que tenho para ti, é esse jovem de quem tanto gostas. Tão somente crê, porque já o tenho dado a ti”.
Ana, balançava a cabeça querendo espantar tais pensamento, porque no fundo, sabia que ainda haviam outras opções, e estas poderiam não ser favoráveis ao seu sonho secreto de namorar Vitor.
O pastor começou a falar de modo casual sobre o assunto, porque este não era o seu tema principal. Mas as palavras dele fizeram o coração sonhador de Ana Paula desfalecer. O pastor disse: “Moça, não fique perdendo seu tempo, sonhando com um rapaz que não te valoriza, que nem vê que você está perto dele, que não pode corresponder ao seu sentimento. Irmãs, não fiquem estagnadas, olhando apenas para um rapaz, como se ele fosse o único ser vivente na terra. Ore, entregue ao Senhor, e abra os seus olhos para ver as pessoas que estão ao seu redor. As vezes, a pessoa que Deus tem para você está tão perto, e você não enxerga, não dá uma chance, porque está cego por uma outra que nem se importa com você.”
A essa altura, o coração de Ana Paula estava inerte. Ela esperava ouvir qualquer coisa, menos isso! E o pastor prosseguia: “Jovens, a Bíblia diz que aquilo que dois ou três concordarem na terra, será aprovado nos céus. Se o rapaz e a moça são crentes fiéis a Deus, e seus temperamentos se combinam entre si, há vários pontos em comum e aprovação das famílias, ore, apresente ao Senhor e vá em frente. Não há pecado nisso. O que vocês moças devem evitar, é ficar perdendo tempo com sentimentos não correspondidos, jogando fora a oportunidade de conhecer jovens realmente interessados em vocês, com condições de assumir um relacionamento e fazê-las felizes sentimentalmente. Se você se encontra em situação parecida, presa a um sentimento não correspondido, ore e peça que o Senhor te liberte disso, porque Deus não quer ver os seus filhos sofrendo, frustrados. Porque nós sabemos que quando o jovem vive essa situação, é assim que ele se sente: frustrado, por não ver suas perspectivas correspondidas ao longo do tempo.”
“Ah, pastor! Que palavras simples, longe de qualquer hipocrisia, mas tão abençoadas para mim”, suspirou Ana entre lágrimas. Seu coração pulsava dorido, mas antes assim. O pastor falara uma verdade. Vitor não lhe devotava sentimento algum além da amizade e ela, perdendo tempo. Quando o pastor fez uma oração em favor dos jovens que encontravam-se duvidosos acerca de seus sentimentos, ou presos a um relacionamento infrutífero, Ana Paula entregou ao Senhor seu sentimento secreto e colocou de lado suas inquietações por Vitor.
Algum tempo se passou. Vitor, continuou alheio a Ana Paula, mas interessara-se firmemente por uma outra jovem da igreja. Os dois iniciaram um namoro. Ana Paula não sofreu nenhum pouquinho. Aos dezenove anos de idade, estava namorando, já pensando em marcar a data de casamento, com um jovem diácono, quem diria, amigo de infância, e que, naquele retiro, estivera tão próximo dela!
Estava feliz. Esquecera Vitor, e encontrara um rapaz que sabia valoriza-la da forma que pedira a Deus. Graças àquelas palavras sábias do pastor Douglas...

23-Sela os meus lábios, Senhor!

Gisele Marques tirou um peso dos ombros quando finalmente viu-se livre de Tiago. Afinal, haviam sido dois meses de namoro. Tempo curto, claro. Mas o suficiente para atribular a vida da garota. Com apenas duas semanas de namoro, Tiago mostrara-se um machista inveterado quando ligou para o celular de Gisele e descobriu que ela estava no salão de beleza, prestes a cortar o cabelo!
- Você vai fazer o quê??? – A voz de Tiago soava no celular como se ela estivesse pendurada à janela mais alta de um prédio e disposta a saltar em segundos.
- Olha, quando eu te conheci você tinha esse cabelo grande. E foi assim que me apaixonei por você. Vê se não vai fazer besteira cortando o cabelo, ok?
- Mas eu... eu não pretendo cortar muito, só vou mudar um pouquinho o visual... - Gisele estava surpresa demais e chegou a gaguejar ao telefone.
- Bom, então, vê se não corta mais que dois dedos, ta? Mais que isso não vou gostar!
Gisele ficou olhando para o telefone um bom tempo, mesmo depois de desligar o aparelho.
Ora! Com esse machismo do namorado, ela não contava. E essa foi apenas uma das inúmeras surpresas que se seguiram durante os dois curtos meses de namoro. Até que finalmente, Gisele percebeu que não suportaria uma convivência mais prolongada com o namorado e pôs fim ao namoro. O rapaz, coitado, não conseguia entender. Ficou magoado, triste... mas aceitou a decisão da garota.
Pronto! Agora ela estava livre para sair com a turma de amigos da igreja e divertir-se de verdade. Para Gisele, Tiago era tão machista e controlador, que ela sentia-se reprimida quase todas as vezes em que saíra com ele. Mas agora, com o fim do namoro, ela tinha que responder às perguntas indiscretas dos amigos e conhecidos.
“Terminaram por quê?”
E logo, por mais que tentasse calar a boca, Gisele permitia que uma enxurrada de palavras negativas sobre o namorado fluíssem de seus lábios. A cada vez que respondia uma pergunta com “Ah, ele era machista demais!” ou “Nossa, foi um alívio quando acabou!”, Gisele também sentia uma pontada na consciência. Uma voz interior alertava: “Você não precisa dizer isso! Não precisa sujar a imagem do Tiago desse jeito!”
Três meses depois do namoro, Tiago continuava tratando-a com a gentileza de um amigo distante. Afastara-se da garota, mas ela nunca, nunca mesmo ouvira um comentário negativo por parte do rapaz. Nunca chegou aos seus ouvidos que ele a tinha criticado ou falado mal do período em que namoraram. Aos poucos, Gisele foi se sentindo culpada.
Que coisa horrível estava fazendo. Pintara de preto um relacionamento que não dera certo. “Só porque você não gostava de algumas atitudes do Tiago você não precisa manchar a imagem dele. Você pode até impedir que outra pessoa aproxime-se dele. E se fosse com você? Se ele estivesse falando mal de você para todos os amigos dele, como você ficaria? Como se sentiria? E o que a Bíblia diz sobre isso?”
Ah, Gisele sabia que Deus abomina fofocas. Conhecia também de cor, versículos que falam sobre a importância de guardar bem a boca e não permitir que palavras maldosas saíssem de seus lábios.
Finalmente, ao voltar de um culto onde Tiago também estivera presente e até a cumprimentara amavelmente, Gisele tomou uma decisão. Falando baixinho, apenas para o Senhor, ela orou:
“Senhor, me perdoe pelas palavras maldosas que permiti que saíssem dos meus lábios. Perdoa-me por manchar desnecessariamente a imagem do Tiago. E perdoa-me por ter sido tão dura, e vaidosa, a ponto de dizer para meus amigos que nada de bom houve em nosso relacionamento. Sei que isso não é verdade. Se eu não tivesse visto qualidades no Tiago, jamais namoraria com ele. Sei que ele não é perfeito, mas também não é o pior dos rapazes. Ele te ama, deseja te servir fielmente, e isso, eu cheguei a criticar nele. Durante o nosso namoro ele também me respeitou, mostrou carinho e cuidado por mim. Lamento que eu não tenha me sentido plenamente satisfeita com as atitudes dele, a ponto de me desinteressar. Mas sei que eu também não tinha o direito de criticá-lo diante de meus amigos e de outras pessoas. Perdoa-me Senhor e ensina-me a calar meus lábios para não ofender outras pessoas. Sela os meus lábios para aquilo que não for do teu agrado. Amém!”
Depois dessa oração, Gisele tornou-se outra pessoa. Certo que às vezes era tentada. Afinal, volta e meia, na igreja, ela deparava-se com as “imperfeições” do ex-namorado, que continuava o mesmo. Mas ela tinha feito uma promessa ao Senhor. Essa promessa a transformou numa pessoa melhor, ética e mais atenta à Palavra de Deus.

22-Mensagem para você

Ângela estava vivendo um desânimo terrível. Tudo ia mal para ela. Na escola, a nota em matemática havia baixado mais ainda. Até português, que era a sua matéria predileta, estava começando a ficar complicada. No último exercício de redação, ela não conseguira organizar bem as idéias, e a professora fizera várias observações. Puxa! Sua vida estava tão chata! Antigamente, bastava pensar em Deus, orar e descansar, e as dificuldades desapareciam como fumaça!
Dessa vez porém, ela estava imersa num imenso tédio e nada acontecia. Uma série de inquietações ocupavam a mente da garota: a vontade de conseguir um emprego, ou ao menos um estágio; a falta de um namorado, o vestibular, a indecisão na hora de escolher o curso certo. Enfim, na cabeça de Ângela parecia haver um milhão de interrogações.
Naquele fim de tarde em especial, ela quase se arrastara para casa, após a aula, ainda com a prova de matemática, com nota cinco, nas mãos. Nem a conversa animada de Rodrigo, seu colega de igreja e de turma, conseguira melhorar seu humor. Seus planos para aquele final de dia também não eram nada animadores. “Vou me deitar e dormir. Quem sabe assim eu esqueço essa confusão toda que se formou em minha mente.”
Rodrigo estava preocupado. “Puxa, a “Engel” (apelido que dera à garota), está na maior deprê, mesmo. O que posso fazer para ajudá-la?” Ele pensou, pensou e nada lhe acudiu à mente. Chegou a casa, guardou os livros na escrivaninha e olhou para o computador. “Taí uma boa diversão para uma sexta-feira à noite, depois de uma prova de matemática. Vou bater um papo com os amigos da net”. Mas primeiro ele foi à geladeira, viu se tinha alguma guloseima e mordiscou um pedaço de pão com mortadela que estava pronto sobre a mesa. Depois voltou ao quarto, sentou-se à mesinha do computador e ligou o micro.
...
Ângela não caiu direto na cama como havia decidido no caminho para casa. Tomou banho, vestiu uma roupa bem fresquinha, e aí sim, olhou para a cama. Na metade do caminho, seus olhos pararam sobre o computador, bem ao lado na escrivaninha. Pensando bem, não estava nem um pouco a fim de acessar a internet. Resolveu comer alguma coisa e depois dormir mesmo. E saiu do quarto.
...
Assim que se conectou a internet, Rodrigo aproveitou para verificar sua caixa de e-mail. Tinha pelo menos umas dez mensagens de amigos da igreja, do colégio e do inglês. Ele começou a ler e a responder cada mensagem. Depois de alguns minutos porém, uma idéia surgiu em sua cabeça. “Vou escrever para a Engel. Quem sabe assim, ela se anima!” Mas sobre o que ele escreveria? Por um instante, baixou a cabeça e refletiu. Depois fez uma oração rápida: “Senhor, não sei dizer exatamente o que se passa com a Engel, mas tu a conheces melhor do que eu. Não sei o que dizer a ela. Ajude-me a escolher as palavras certas, e a transmitir uma mensagem que venha direto do teu coração. Amém”.
...
Quando Ângela voltou ao quarto, uma vontade enorme de ligar o computador e passar o tempo para esquecer a tristeza, tomou conta. Ela ligou o micro e conectou-se à internet. Abriu sua caixa de e-mail e viu que haviam três mensagens novas. Uma era de Rodrigo. Ao abri-la, pôde ler as poucas palavras que o amigo havia escrito para ela:

“Engel, o desejo do Senhor para você é que você supere as dificuldades e viva em abundância de alegria. Saiba que o Senhor é poderoso o suficiente para mudar sua tristeza em alegria e dissipar todos os problemas. Basta apenas pedir com fé e confiar na resposta que por certo virá. Estou orando por você neste momento, e quando precisar de um amigo, estarei aqui. Para sua edificação, leia também: salmos 46.10. Um abraço. Rodrigo.”
...
Ângela, há algumas quadras de distância, chorava em frente ao computador. Ela buscara sua bíblia e lera a pare “a” do versículo: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus”. Rodrigo dissera pouca coisa, mas suas palavras eram verdadeiras. A garota curvou a cabeça e orou: “Oh, Senhor, obrigada por se importar comigo, e me mandar uma mensagem tão maravilhosa por meio do Rodrigo. Ajuda-me a superar as dificuldades e a ser mais confiante em ti. Amém!”
Depois da oração, Ângela estava mais tranqüila e alegre. Rodrigo também estava feliz. Quando o telefone tocou, e ele ouviu a voz da “Engel”, feliz e agradecida, percebeu como uma simples mensagem de encorajamento enviada pelo computador podia ajudar alguém.

Recadinho:
A internet hoje em dia é usada de diversas maneiras. Há quem use para o mal, para disseminar e aprender coisas ruins; há quem se deixa viciar pelas coisas negativas que a Rede Mundial de Computadores nos oferece. Mas ela também nos oferece uma série de ferramentas importantes e úteis para o bem. Você pode usar este mesmo instrumento de tecnologia e conhecimentos para divulgar a Palavra de Deus, para enviar mensagens que edificam e fortalecem amizades cristãs. Quando estiver conectado, lembre-se disso, e deixe sua contribuição on-line para o Reino de Deus.

21-A história de um folheto

Era um folheto igual aos demais que estavam nas mãos de alguns adolescentes. Era domingo e, como de costume, logo após a Escolha Dominical a Classe dos Adolescentes revezava seus alunos na distribuição de folhetos ali na Praça do Relógio, em Taguatinga. Quem passava por lá, aos domingos, naquele horário, recebia um folheto com uma curta mensagem evangelística.
Jocilene estava já meio cansada. Queria ter dormido mais um pouco àquela manhã. Mas claro, nos domingos pela manhã e à noite, a família dirigia-se à igreja. E naquele domingo, ela estava na escala do evangelismo. Ela gostava de entregar folhetos. Achava que era uma forma de contribuir para Deus, já que não era muito de sair pregando na escola ou seja lá aonde fosse. Ela entregava as mensagens e, quando alguém se mostrava mais interessado, dizia uma palavra a mais. E se o assunto fosse mais profundo, ela buscava a ajuda do Irmão Gustavo e Irmã Iliete. Neste domingo, porém, aparentemente, os esforços da garota traziam poucos resultados. Afinal, ela viu boa parte dos folhetos que distribuíra sendo jogados ao chão, ou na primeira lata de lixo. Alguns eram rasgados. Alguns porém, muito poucos, eram guardados dentro de livros, cadernos, bolsas de pessoas que passavam apressadas, mas não se desfaziam logo do papel.
Um dos folhetos jogados ao chão, voou, sendo carregado pelo vento e chocou-se no primeiro banco da praça. Jocilene deu um suspiro. “Lá se vai uma mensagem perdida!”, pensou. Ela não observou muito, por isso não percebeu que, pela força do vento, o pequeno papel ficou agarrado ao pé do banco onde estava um velhinho sentado lendo o jornal do dia. Quando acabou de ler o jornal, o velhinho levantou-se e sem querer chutou o pé do banco. O folheto desprendeu-se suavemente, foi pisado pelo mesmo velhinho e lá se foi arrastado pelo vento.
Dessa vez, um moleque que andava à toa, viu o papel voando, achou engraçado, correu atrás e pegou-o. Viu do que se tratava, fez com ele uma bolinha de papel e pôs-se a chutá-la por alguns instantes até que a bolinha foi jogada para mais longe.
Jocilene e o grupo de amigos já haviam saído da praça. Tinham feito o trabalho evangelístico naquele dia e o almoço os aguardava em suas casas. Mas o folheto desgarrado continuou sua peregrinação. Chutado, apanhado, lido rapidamente, jogado novamente ao chão, levado pelo vento. Lá se foi o pequeno papel com versículos bíblicos e uma mensagem curta, fácil de ler, sobre a Salvação.
No decorrer daquela tarde, Jocilene se pegou meditativa e um pouco triste, pensando em quão poucas pessoas haviam se permitido receber os folhetos naquele dia. “Será que nosso tempo é perdido? Às vezes acho que, se não há muito para quem entregar ali, deveríamos mudar de local. Ou de estratégia. As pessoas não estão nem aí pra Deus! Nem aí pro nosso trabalho... Será que isso dá resultado?”
O dia chegou ao fim. Perto das 20h da noite, os “Inquilinos da Praça” foram chegando. Mendigos, drogados, sem-teto, foram se arranjando nos bancos frios, nos pontos de ônibus mais próximos ou no chão duro. Mais tarde um pouco, já pelas 22h, um mendigo sujo, com a barba crescida, aproximou-se de um dos lados da praça com sua carroça cheia de caixas de papelão e alguns papéis. No canto do murinho de cimento que protegia uma das árvores da praça, ele viu um papel bonito, colorido e amassado. Apanhou-o e guardou-o no bolso sujo da camisa. Depois empurrou a carroça para um canto, forrou o chão com papelão e sentou-se. Lembrou-se do cigarro e colocou a mão no bolso da camisa para procurá-lo. Suas mãos retiraram o pequeno papel amassado e gasto. Abriu-o devagar e começou a ler com dificuldade.
Aquele homem anônimo, de meia-idade, foi sentindo um alívio, um bálsamo suave dentro de si enquanto lia. Palavras vivas, falando de amor e de salvação penetraram em seu coração machucado. As mãos ficaram trêmulas. Os olhos encheram-se de lágrimas e elas escorreram pelo seu rosto sujo e endurecido pelo vento. Contudo, dentro daquele corpo imundo, um coração sofrido e embrutecido pela dureza da vida, era acalentado pela Palavra de Deus.
Horas depois, alguém passou pela praça e viu um mendigo dormindo no chão com as mãos dobradas sobre o peito, segurando um papel amassado junto ao peito. Seu rosto, apesar de sujo, trazia uma expressão de paz.
Àquela mesma hora, Jocilene dormia em sua cama confortável. Antes de se deitar ela havia orado, contado ao Senhor de suas dúvidas e apreensões quanto ao alcance do evangelismo aos domingos na Praça do Relógio. Talvez algum dia, ainda na Terra, ela viria a saber que aquele folheto desprezado, jogado no chão da praça, havia chegado a seu destino e cumprido sua missão. Através daquele papel sujo e amassado, uma vida foi abençoada com "uma pequena porção da Palavra de Deus". E resgatada das trevas para a maravilhosa luz de Cristo.

20-Mantendo a pose

Micheline Gomes, 14 anos, caminhava devagar pela rua principal do centro da cidade onde morava. O olhar vagueava longe. Cansada de caminhar sem rumo, a garota finalmente jogou-se sobre um dos bancos do calçadão e deixou-se ficar um pouco quieta, observando as pessoas que passavam apressadas à sua frente.
Viu uma garota alta, esguia, vestida numa calça jeans preta que modelava bem o corpo magro, usando um bustiê rosa choque e os pés calçados com uma sandália preta, da última moda.
Micheline baixou a vista para os pés e, sem querer, começou a comparar a sandália já um tanto gasta que usava praticamente todos os dias para todas as ocasiões, e suspirou desanimada. “Ela parece com uma daquelas modelos que aparecem na televisão”, pensou, enquanto observava a jovem caminhar esguia e elegantemente no simples calçadão do centro. Michele ainda não retirara os olhos da moça, quando o sapato alto dela enganchou, sabe-se como, num dos paralelepípedos da rua. A garota, imediatamente perdeu o equilíbrio, e, quase foi ao chão, não fosse a ajuda rápida de um senhor que passava perto. Bastante encabulada, a mocinha começou a soltar uma série de palavrões, ao mesmo tempo em que, já descalça, tentava retirar a sandália-última-moda do buraco onde ficara encasquetada.
Michele sentiu dó da moça. “Coitadinha! Que vexame, terrível!” Mas a moça conseguiu soltar a sandália, que ficou inclusive, estragada, de um lado. Ela calçou a sandália assim mesmo, murmurando: “Lixo de sandália, porcaria de rua emburacada...!” Vendo aquela cena, Micheline pensou duas coisas: uma, que o destino daquela sandália seria o lixo, tal qual dissera a dona; outra, que toda aquela aparência, aquela pose de maravilhosa, ruíra por terra, por causa de uma “topada”!
Como as pessoas reagiam diante de situações inusitadas e por vezes até embaraçosas? Se fosse você, como agiria numa situação como essa? - Micheline se perguntou e respondeu imediatamente: “Provavelmente, morreria de vergonha, e depois saíria correndo, sem ao menos se preocupar em calçar novamente os pés!”
E daí, ela começou a formular uma pequena, mas importante lição de vida. A aparência das pessoas é o que menos importa; o que conta, é quem a pessoa é de verdade, que valores ela guarda dentro de si, e espelha; o mais importante, é a capacidade de dar a volta por cima diante dos tropeços que a vida gosta de pregar na gente. Com certeza, aquela jovem viveu um “papelão”, ainda mais, por não conseguir manter “a pose”, em plena rua.
Aí Micheline ficou pensando: no sentido espiritual, o que significa manter a pose? “Hum... acho que tem a ver com saber enfrentar uma situação, como por exemplo dizer não a alguma coisa que não edifica o cristão, sem se sentir culpado, envergonhado, sem causar vexame à fé que a gente diz ter diante das pessoas.
Mas por outro lado, manter a pose, tem a ver com falsidade, com uma vida de aparência. E isso - ela viu - não era uma boa idéia porque no primeiro tropeço, tudo o que a gente é de verdade, vem à tona.
Será que eu estou vivendo realmente aquilo que Jesus ensina na Sua Palavra? Ou estou igual àquela mocinha, bonitinha, toda elegante por fora, mas por dentro, tão deselegante, a julgar pelas palavras que proferiu?
“Jesus! Ajuda-me para que eu seja verdadeira por dentro e por fora, e saiba espelhar a tua vida em mim, sem falsidade, com fidelidade na tua presença!”
Micheline sussurrou “Amém”, ao final de sua prece, levantou-se e prosseguiu sua caminhada pelo centro da cidade. Mas com cuidado para não deixar que sua sandália ficasse agarrada num dos buracos da rua. Apenas por precaução.

19-Deixando todo o embaraço...

Sabe aquela pessoa que está sempre à frente dos trabalhos da igreja, ou na liderança da mocidade? Você tem a maior admiração pela pessoa, acha que ela é o seu maior exemplo de conduta, de servo de Deus... aí um dia, você descobre, ou percebe, que ela não é assim tão certinha, ou espiritual, como você pensava. Bate uma tristeza, não é? Uma dececepção! A gente se sente traído, iludido, enganado... Isso já te aconteceu?
Pois é. Aconteceu com a Carla. Alias, com uma pessoa que ela admirava muito. Vou explicar. A Carla é uma adolescente de 15 anos, que sempre freqüentou a Escola dominical todos os domingos, pra ouvir e estudar a palavra de Deus. Ainda mais, porque irmão Julio, um jovem casado, era o professor. E como ele sabia ensinar! Falava na linguagem dos jovens, mas com muita sabedoria. Quantas vezes, Carla e algumas amigas, conversaram com o professor e sua esposa (que também trabalhava com jovens), para esclarecer algumas dúvidas, ou para pedir conselhos! Irmão Julio era o máximo, na opinião de Carla. Até o dia em que ela estava chegando na porta do colégio, e por acaso, viu seu estimado professor de Escola Dominical tratando mal a um mendigo que costumava pedir esmolas à porta de entrada. Carla ficou pasma! Ele não só recusara-se a dar qualquer ajuda ao velhinho, como também lhe dirigia palavras duras, de menosprezo. Falou alto, chamou a atenção das pessoas que passavam perto e humilhou ainda mais o pobre homem. Carla sentiu como se tivesse levado o maior soco no peito. “Dá pra acreditar que na lição passada ele falou justamente sobre misericórdia? Ele até emocionou a turma de adolescentes com suas palavras tão belas, tão cheias de calor humano...”
Carla queria sacudir o dedo no rosto de irmão Julio, e perguntar se aquela aula não passara de uma encenação. O professor entrou no seu carro, um Eco Sport 2005, muito bonito. E foi embora, sem notar que uma de suas alunas acabara de ver aquela cena.
E a partir desse dia, Carla ficou no maior dilema. Nem queria ir mais à EBD, com medo que seu olhar revelasse toda a revolta que sentia ao lembrar o modo como o professor de fato, demonstrava sua “misericórdia” pelos mais humildes. Carla começou a orar sobre o assunto. Evitava até conversar com as amigas, para não abrir a boca e contar o que vira sobre o professor. Só não fazia isso, porque no fundo, ela mesma achava que só iria piorar as coisas, falando mal de alguém. Continuou orando. Até que um dia, Deus falou para ela através, adivinha de quem? Do professor hipócrita! Foi quando ele citou um versículo na aula, que dizia assim: “Portanto, deixando de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós, continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós. Conservemos os nossos olhos fixos em Jesus, pois é por meio dele que a nossa fé começa, e é ele quem a aperfeiçoa.”(Hb 12.2 - Linguagem de Hoje)
Pimba! Aquele versículo era a palavra que Carla precisava ouvir. Claro! Estava na hora de fechar os olhos para os defeitos do professor (Deus que cuidasse disso), e prosseguir em frente, na fé, atenta ao que a Palavra de Deus de fato ensina. E mais: ela devia encarar aquela situação como uma experiência. E serviu para que ela ficasse atenta à sua própria conduta. Será que sua vida também estaria escandalizando alguém?
Pois bem. Carla orou por ela, pelo professor pediu graça a Deus e continuou firme na igreja, freqüentando a Escola Dominical. Um dia, irmão Julio não apareceu para dar aula. Uma professora assumiu o lugar dele. Ninguém soube explicar direito; mas o que chegou aos ouvidos de Carla, foi que o pastor descobriu umas coisas erradas na vida do jovem. Ele e a esposa acabaram saindo da igreja. Muita gente ficou boba, triste, arrasada. Alguns jovens até desanimaram na fé. Carla suspirou. Realmente era uma pena, que tudo aquilo tivesse acontecido. Mas lá no coração, ela sentia um alívio, ao constatar que sua fé estava firmada em Cristo, e por isso, não mais se sentia abalada espiritualmente. Sua esperança agora, era a de prosseguir sempre em frente, rumo ao seu alvo: o Céu.

18-Um momento de reflexão

Paulo abriu os olhos e contemplou o teto de seu quarto. Olhou para o relógio em cima do criado-mudo. Oito horas da manhã. “É cedo demais e hoje é sábado”. Virou-se na cama e fechou novamente os olhos. Mas o sono resolvera ir embora por enquanto; ele que ficasse acordado.
O rapaz levantou-se contrariado com a falta de sono. “O que vou fazer hoje?” Tinha o futebol com a turma da igreja, na praia. A namorada Renata... Podiam sair juntos, divertirem-se. Mas Paulo não sabia por que, estava sem vontade de fazer uma ou outra coisa. O dia cheio de programação e ele sem vontade de fazer nada!
Paulo tomou banhou, café, fez o de sempre. Dez horas o telefone tocou. Não precisava nem adivinhar. Era o Sérgio.
- E aí? Vai bater uma bolinha?
- Não, Sérgio. Tô sem um pingo de vontade...
- Ê... Que é isso, rapaz? Acordou deprimido?
- Não, não. Apenas não sinto vontade de ir à praia hoje. Vou ficar em casa mesmo.
- Ih... E a Renata? Ela disse que vem.
- Eu ligo pra ela.
- Tudo bem, então. Se mudar de idéia apareça.
Paulo desligou. A mãe catava feijão na mesa e olhou para o filho espantada.
- Vai ficar em casa hoje?
- É. Acho que preciso pensar em algumas coisas.
- Algum problema, filho?
- Não, mãe. Acho que hoje eu preciso dar uma paradinha...
Ligou para Renata e explicou que precisava ficar sozinho este dia. Ela ficou preocupada no início. Mas Paulo esclareceu mais:
- Preciso fazer uma reflexão sobre minha vida espiritual. Creio que hoje é um dia ideal.
Tudo bem. A namorada sorriu e desejou que ele tirasse muito proveito em seu momento de reflexão com Deus.
Paulo foi para o quarto. Pela janela aberta percebeu a intensidade do sol. “É um bom dia para ir à praia”. E pensou: “É um bom dia também para conversar com Deus”.
Abriu a Bíblia, refletiu em alguns versículos, cantou alguns hinos, orou. Abriu o coração diante de Deus, derramou-se em sua presença. Ainda refletindo, ele percebeu que fazia bem parar um pouco a agitação de cada dia, esquecer por momentos a bola, namorada e amigos e usufruir da presença do Criador. Passar tempo com Ele.
Alguém bateu na porta do quarto.
- Filho, hora do almoço. Seu pai já chegou.
Paulo encerrou seu momento de reflexão e foi almoçar. A mãe, sempre curiosa, perguntou:
- O que você tanto fazia lá no quarto?
- Estava passando um tempo com Deus. Sabe, às vezes a gente tem que dar uma paradinha e relaxar na presença de Deus. Faz muito bem à alma e ao espírito...
Os pais se entreolharam sorrindo, ao observarem o rosto descontraído do filho, e o brilho de seus olhos. Era bom saber que seu filho tinha tempo para Deus.

17-Um dia de mãe

Isaura passeava de um lado para outro da casa, eufórica e ao mesmo tempo preocupadíssima com cada detalhe que não poderia ser esquecido, enquanto estivesse fora.
Era só um dia, apenas aquele sábado. Mas havia muito com que se preocupar: a casa, o bebê, o marido, os outros dois filhos...
Bia, de treze anos, a mais velha da casa, ainda passava a mão nos olhos, sonolenta. Olhou o relógio de parede com pesar:
“Sete horas! Eu poderia dormir até as onze...”
- Bia, não esqueça de nada do que te falei. Você lembra de tudo, não é?
Ela virou-se para a mãe, que apanhava a bolsa e colocava a tiracolo, já pronta para sair, e murmurou:
- Lembro, mãe.
- Ótimo, filha. Um beijo. Não esqueça de olhar o Felipe. E deixe o almoço pronto para quando o seu pai chegar. Acorde o André. Tchau, filha!
Ela saiu dando uma última olhada na casa, para certificar-se de que não esquecera de nada. Papai saiu logo atrás. Deixaria a esposa na igreja, e de lá, iria direto para o trabalho.
Bia deixou a cabeça cair sobre a mesa cheia de louça suja do café e adormeceu. Acordou com os murros do irmão de dez anos.
- Acorda, sua tonta! O Felipe tá chorando. Cadê a mamãe?
Bia deu um salto, olhou para o relógio e pôs a mão na cabeça.
“Essa não! São dez horas!”
Correu para o quarto do bebê, tentando lembrar das instruções que sua mãe dera.
- Calma, Felipinho, a mamadeira já está prontinha!
Balançou um pouco o irmão no berço e correu para a cozinha.
“Onde foi mesmo que a mamãe deixou a mamadeira?”
Lá estava ela, em cima do fogão. E o bebê chorava, chorava! Quando conseguiu acalmá-lo, já eram dez e meia. A garota foi para a cozinha e começou a tirar os pratos sujos da mesa.
- Ei, deixa aí! Eu ainda nem tomei café! – André sentou-se rápido à mesa. Cadê a mamãe? Essa casa tá uma bagunça!
- Mamãe foi passar o dia fora, naquela programação especial da igreja para o dia das mães. Eu e você vamos tomar conta da casa hoje, disse Bia, com voz de comando.
- Quem? Eu? Ah, não! Tô fora! Vou jogar bola na rua.
O garoto agarrou um pedaço de pão e saiu correndo pela porta.
- André, volte aqui!
Mas o moleque já ía longe... O jeito foi se virar sozinha. Bia recolheu os pratos, limpou a mesa e foi ver o que a mãe havia deixado para o almoço: galinha crua e temperada. “Como vou saber, se a galinha já está pronta para comer?” Tentou lembrar o que sua mãe dissera pouco antes de se arrumar para sair.
“Picar cebola, tomate, colocar água... Quanto mesmo de água? É antes ou depois de refogar? Ai, meu Deus!”
Graças a Deus, Isaura deixara tudo anotado num papel enganchado na porta da geladeira. Foi um alívio! Mesmo assim, não era tão fácil seguir as instruções. Sem falar no Felipe, que chorava querendo atenção.
Quando terminou de fazer o almoço, doze e meia, a cozinha estava suja, os pratos na pia ainda por lavar e mais um bom número de panelas que ela usara para o almoço.
“Não posso acreditar que ainda precisarei lavar tudo isso!”
Mas papai chegaria logo, logo, e ela sabia muito bem como ficaria o seu humor, se encontrasse a cozinha naquelas condições. Lavou os pratos, as panelas, e começou a varrer o chão. Então papai chegou. Bem na hora em que o Felipe começou a chorar de novo.
- Olá, filhinha! Como está se saindo?
Bia nem respondeu. A cara já dizia o quanto estava cansada. Papai sorriu e abraçou-a com carinho.
- Sua mãe faz uma falta, né filha?
E que falta! Ela poderia estar assistindo televisão, lendo alguma revista, qualquer coisa assim!
Depois do almoço a mesma rotina dos pratos. Depois, veio a arrumação da casa, que não fora possível pela manhã. Papai ajudava, mas era tão desajeitado!
Finalmente o fim de tarde chegou, e com ele, a mamãe. Beatriz nunca ficara tão contente em ver a mãe de volta.
- E aí, Bia? Deu pra agüentar o “tranco”? Tudo certinho aí?
- É... Dentro do possível!
Isaura abraçou a filha com carinho.
- Foi um dia cheio hoje, né filha?
- Foi um “dia de mãe” na minha vida, sabe? Concluiu Beatriz.
Naquele sábado, Bia foi dormir mais cedo. Mas não sem antes escrever no diário sobre as experiências do dia e preparar uma lembrançinha especial para entregar à mãe no dia seguinte, o Dia das Mães.

16-Onde está o teu tesouro?

Julia sorria para os quatro cantos do mundo. Parecia viver num mar de rosas. O dia passara rápido demais para tantos acontecimentos bons. O melhor do dia não fora a nota dez em matemática, e sim, os olhos ternos de Dennes e seu sorriso magnético. Ambos faziam parte da igreja Assembléia de Deus central e encontravam-se muito envolvidos com as atividades promovidas para os jovens. Um dia, porém, Julia percebeu que seu coração batia mais rápido e descompassado quando estava próxima a Dennes; ele também percebera que seu carinho por Julia havia crescido. Num fim de tarde feliz, quando Julia saía do colégio surpreendeu-se com a presença inesperada do rapaz, que em pé, à porta de saída, aguardava-a . Entre sorrisos e olhares meigos, Dennes expôs seus sentimentos à Julia, dando assim, início ao namoro.
Um ano já se passara. Julia, com dezessete anos, preparava-se nervosa para enfrentar o vestibular que seria dali a três meses. Dennes, por sua vez, tinha os mesmos objetivos, mas seus planos foram frustrados com a súbita doença de seu avô, que morava numa outra cidade distante do interior. Às pressas, com o consentimento e apoio de sua família, o rapaz viajou parra a casa dos avós onde ficaria por tempo indeterminado, auxiliando nos negócios e ajudando no que fosse necessário. A despedida de Julia foi dolorosa, mas prometeram orar um pelo outro, durante a longa ausência de Dennes.
Os primeiros meses passaram e Julia percebeu que as cartas que Dennes lhe enviara eram insuficientes para aplacar a saudade. Começou a ficar ansiosa, mal humorada e pior, a pensar mal de Dennes. Começou a suspeitar da fidelidade dele. Às vezes, as cartas do namorado demoravam a chegar. Quando isso acontecia, ele pedia desculpas e explicava que o trabalho era muito e que seu avô estava muito debilitado para ajudá-lo. Também citou a igreja da cidade. Comentou feliz que alguns até o apontavam como candidato a líder da Mocidade e não queriam que ele voltasse. Terminava reforçando seu amor por Julia e o seu desejo de retornar logo.
Julia, porém, modificava-se cada dia mais. Deixou de freqüentar os cultos de jovens e raramente participava das atividades da igreja. O vestibular havia passado e ela fora aprovada no curso de Letras. As aulas tiveram início naquele mês e Julia entregara-se aos estudos afastando-se cada vez mais da igreja. Suas cartas já não falavam com vigor das novidades da igreja. Transformaram-se em meros boletins informativos, sem nenhum toque pessoal. Dennes percebia, mas não conseguia entender a mudança de Julia. Distante, só podia orar.
Às vezes Julia se perguntava: “Por que, meu Deus? Por que estou assim, tão distante de ti?” Mas a resposta vinha-lhe ao coração e ela já a conhecia. Na verdade sentia falta de Dennes. Ir à igreja e não vê-lo à frente dos trabalhos ou ao seu lado durante os cultos, erra-lhe muito doloroso. Oh, quantas saudades! E sentia raiva. “Por que, Deus? Por que você permitiu que o avô de Dennes adoecesse e ele tivesse que ir? Sinto tanto a falta dele! Eu o amo tanto, que não consigo viver longe dele!”
Era esse o problema de Julia. Seu amor a Deus fora suplantado pelo amor que sentia por Dennes. Sua fé também se fora. Sua paz, sua alegria, sua vontade de viver não estavam firmados em Cristo, mas em Dennes. E agora ela se sentia perdida. Enquanto Dennes crescia espiritualmente, tendo seus olhos firmados em Cristo, e tão somente Nele, Julia afundava-se cada vez mais num poço de solidão e tristeza.
Mais seis meses se passaram. Dennes ligava sempre que podia e escrevia também, na medida do possível. Julia tornara-se possessiva e ciumenta em suas cartas e telefonemas, de modo que ele já não comentava sobre suas amizades na igreja para não dar motivos aos ciúmes da namorada. Continuava a orar e demonstrar seu amor.
Um dia, num culto especial, um pastor de fora recebeu convite para ser o preletor. Ao pregar, baseou sua mensagem em Mateus 6:21 e fez do versículo o tema da sua pregação. O versículo diz o seguinte: “Porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”
“O teu tesouro pode ser o dinheiro, uma promoção no emprego, a faculdade, o pai, a mãe, um namorado até. Nesta noite Cristo te pergunta: onde está o teu tesouro? Teu tesouro está em Cristo? É Cristo o teu tesouro? Em teu coração Ele ocupa o lugar principal?”
Julia mal podia crer no que ouvia. A mensagem parecia ser toda para ela e já sentia seu rosto avermelhar-se de vergonha. Tentou desculpar-se com o Senhor, mas não havia como negar o fato: pensava mais em Dennes, vivia para Dennes, esquecera-se completamente de Deus. Lágrimas rolaram em seu rosto enquanto continuava a ouvir:
“Há pessoas que esquecem de Deus. Trocam-no por qualquer coisa ou pessoa. E sabe o que acontece? Ela não se satisfaz. O ser humano não é perfeito. É falho. E todos nós precisamos de Deus para vencer as dificuldades e nos sentirmos completos. Mas você que coloca seus esforços, suas esperanças em outro ser humano, já deve estar sentindo a verdade dessas palavras e está decepcionado! Cristo nunca falha! Cristo te ama como ser humano algum poderá te amar. Ele conhece tuas necessidades melhor que ninguém. O coração está voltado para você. E o seu coração, está voltado para Deus?”
Quanta tristeza para Julia. Seu coração não estava no Senhor. Afastara-se completamente. Embora freqüentasse os cultos de Domingo sabia que não era para o culto que voltava seus pensamentos. E quando seus olhos derramavam lágrimas, não era por sentir o toque de Cristo. Era sim, por saudades, muitas saudades do namorado. Sentia até raiva quando via alguém substituindo Dennes nos trabalhos da igreja. Não, seu coração não estava no Senhor.
“Se você sente que tem voltado sua vida para outra coisa que não Deus, e tem-se deixado guiar por esses sonhos, dê um passo de volta para Cristo. Levante-se e venha até a frente, nós oraremos por você. Cristo quer assumir o controle da sua vida. Ele quer voltar a ser o centro da sua vida. Ele te ama. Venha!”
Julia levantou-se chorando. Outras pessoas também levantaram-se. O pastor continuou falando enquanto alguém cantava baixinho um corinho de entrega.
“Não se preocupe com o amanhã. Entregue-se a Deus, não tenha medo de perder quem você ama. O Senhor sabe de tudo. Entregue-se a Ele e deixe que Ele faça o resto. Ponha o seu tesouro em Cristo!”
O pastor dirigiu uma oração especial pelas pessoas que foram à frente. Após a oração, Julia teve certeza de que seu coração estava novamente em Cristo. Seu tesouro agora estava voltado para Deus. Não sentia mais aquela preocupação exagerada por Dennes. Julia fora libertada daquela dependência que sentia em relação ao namorado e de suas preocupações com respeito ao futuro. Seu amor por Jesus agora era superior ao amor que sentia por Dennes.
Um mês depois, o avô de Dennes faleceu. A família decidiu mudar-se para a outra cidade e assim, dirigir os negócios além de prestarem assistência à vovó. Dennes sentiu que Deus o chamava para trabalhar com aquela igreja no interior e obedeceu. Seu namoro com Julia durou pouco tempo.
E Julia? Voltou às atividades da igreja e com amor prosseguia nos caminhos de Cristo. Não se sentia só. Sabia que sua vida estava nas mãos de Deus e continuava confiando Nele. Sua amizade com Dennes continuou e ainda se correspondiam. Mas agora Julia sabia que estava na vontade de Deus. Seu tesouro estava em Cristo e seu coração estava nele.