35-Viagem sem volta
Ronaldo e Douglas, do 1º ano B, sentaram-se próximos à quadra de vôlei para lancharem. Douglas deixou-se divagar em pensamentos, enquanto observava as meninas da manhã no treino.
“Puxa, Merci! Você poderia ter feito melhor!”
Merci era sua colega da igreja. Ela acabara de perder um saque.
- Vamos lá, cara! Prove isto.
Douglas voltou-se distraidamente para pegar o sanduíche que o amigo estava lhe oferecendo.
- Hã? - Aquilo não era um sanduíche. Ron estava lhe mostrando uma outra coisa.
- Você vai se “amarrar”, cara!
- O que é isso?
Seu “passaporte”. Muito melhor que um sanduíche. Vamos lá, é só tragar...
- Tô fora!
- Quê?!
- Isso é droga, cara. Não quero saber desse lixo.
- Qual é cara? Que caretice!
Douglas levantou-se, visivelmente irritado.
- Tô fora, Ron. Isso vai acabar com a sua vida. Eu quero viver, e de preferência, bem longe disso.
Douglas virou as costas e saiu. Estava meio desnorteado e bastante surpreso com sua própria raiva. “Deus, eu nem acredito. Meu melhor amigo metido com drogas!”
Ele entrou no primeiro corredor e andou sem rumo alguns instantes. A cabeça parecia querer explodir, num turbilhão de pensamentos soltos, desorganizados. “Acho que pisei na bola com o Ron”, refletiu em seguida. “Mas que raiva me deu! O cara metido com drogas!”
Alguém agarrou-o pelo braço. Era o Ron, bastante assustado.
- Fica frio, cara. Se você não gosta desse lance, vamos esquecer, tá legal?
Douglas encarou-o com sentimentos mistos de raiva, tristeza e compaixão.
- Ron, você pode optar por coisas melhores.
Ronaldo sorriu incrédulo, com um brilho opaco no olhar.
- Não se preocupe. É só curtição. Eu uso quando quero. Pra fugir um pouco das coisas... Você sabe.
Ele sabia. A mãe do amigo era uma alcóolatra e os pais estavam separados há seis meses. Não era nada fácil. Douglas encarou-o sério, tomando uma decisão.
- Ron, Deus pode te tirar dessa. Ele é o melhor amigo que qualquer pessoa pode ter...
- Sem essa cara! Bíblia pra mim, não. Eu sei o que eu tô fazendo. Esquece, tá legal?
Ele foi saindo rápido e Douglas tentou detê-lo.
- Ron, escute...
- Chega! Ron gritou e apressou os passos.
- Jesus te ama, Ron! Deus pode te tirar dessa!
Ronaldo tapou os ouvidos e começou a correr. A voz de Douglas continuou insistindo, gritando.
- Jesus te ama, Ron...
Mas ele já dobrara o corredor, desesperado. O toque de aulas soou e outros alunos encheram o corredor em direção às salas.
***
Douglas foi até o bebedouro e tomou um gole de água. Estava chateado.
- Oi, Douglas, como vai?
Era Merci.
- Oi, Merci. Estou legal. – a voz dele indicava o contrário. – Como foi o treino?
- Bem. O meu time ganhou. Você vai hoje à noite para a igreja?
- Vou sim – ele fez uma pausa – Minha aula já deve ter começado. Até a noite, então.
- Até lá!
Douglas correu para a sala de aula. Procurou por Ron. Ele não estava, e não havia sinal de suas coisas.
“Estraguei tudo!”
À noite, no culto, Douglas estava mais calado que o habitual. Quando a programação terminou, ele procurou o pastor Jonas, líder da mocidade, e teve uma longa conversa.
- Ore por ele, aconselhou o pastor. Procure aconselhá-lo, mas lembre-se: nem sempre é possível salvar um amigo das drogas. Ajude-o até onde puder e não canse de interceder a Deus por ele.
Douglas fez-lhe muitas perguntas e no final da conversa, oraram por Ron.
Ronaldo faltou à aula no dia seguinte. Douglas ligou para ele assim que chegou em casa. O próprio Ron atendeu, mas fingiu que era o irmão mais velho.
- O Ronaldo saiu, disse ele.
- Ron, é você? Douglas reconheceu-lhe a voz. A linha ficou muda por instantes.
- Você ligou pro número errado, cara! Gritou Ron com voz rouca. E desligou.
Douglas segurou o telefone mudo nas mãos. “Senhor, eu estou tentando!”
Ronaldo faltava muito às aulas e agora Douglas sabia o porquê. Uma vez encontrou-o por acaso, quando saía do colégio. Estava com os olhos muito vermelhos, um cigarro na boca e cheirava mal. Ficou tão espantado quando viu o amigo, que iria correr, se Douglas não o detivesse a tempo.
- Como vão as coisas? Douglas tentou mostrar-se descontraído.
- Tudo “maneiro”, na boa – Ron falava muito nervoso, olhando de um lado para outro, como se estivesse sendo perseguido. Depois olhou desesperado para o amigo.
- Cara, você tem um dinheiro aí? É pouco. Sabe, a minha mãe não anda legal e eu tô sem grana...
Douglas sentiu-se encostado à parede. Sabia que Ron estava desesperado pela droga.
- Não – Respondeu devagar – Gastei o dinheiro no lanche.
A expressão suplicante de Ron morreu em seu rosto. Ele cuspiu no chão e encarou o amigo com uma expressão amarga.
- Você tem sim, cara. Não quer me dar. Grande amigo você é...
Ele soltou uma série de palavrões e Douglas sentiu que as coisas não estavam nada bem.
É melhor ir embora. O Ron tá doidão...
Mas em seu peito sentia um impulso. Vontade de ajudar, tirar o Ron daquela situação. Segurou o amigo pelos ombros.
- Sai dessa vida, Ron! Existem pessoas que podem te ajudar. Jesus te ama!
- Me larga, Douglas. Eu já disse: pára com essa coisa de Deus! Me deixa, cara!
Ele empurrou Douglas e se foi.
Ron continuou faltando aula. Agora era raro ele aparecer. As notas caíram. Já se ouviam boatos por todo o colégio. Finalmente, ele abandonou os estudos. Douglas por sua vez, tornara-se apático, pensativo, angustiado. “Eu tenho que tirar o Ron dessa!”
- Tudo o que você pode fazer agora é orar – Merci aconselhava.
- Eu tentei, Merci. Fui à casa dele várias vezes, tentei conversar, levei os trabalhos do colégio... Eu tentei falar de Jesus para ele... Mas ele não me escuta, não liga!
Ele olhou abatido para Merci e sussurrou:
- Eu não conheço mais o Ron.
***
Quando o telefone tocou, Douglas reconheceu a voz rouca de Lúcia, mãe de Ronaldo. Sentiu um frio na espinha.
- Ele está no hospital. Não sei o que deu naquele inútil! Tentou se matar e agora insiste em ver você – ela disse, a voz distante.
“Inútil” - a voz ecoou na mente de Douglas enquanto se dirigia ao hospital. “Pode ser para a sua mãe, amigo. Mas não para Deus, não para mim” Depois ele ficou pensando que aquela pobre mulher também era uma escrava do vício. “Os dois precisam de Jesus”.
Douglas encontrou o amigo num leito de hospital, sozinho. Os pulsos estavam enfaixados. Ron voltou-se com os olhos cheios de lágrimas.
- Cara, eu me matei!
- Você está bem, Ron. Os médicos já contornaram a situação.
- Não. É por dentro... Eu tô acabado!
Douglas sentia um nó apertando sua garganta.
- Ron, ainda há esperança. Jesus te ama, ele pode te ajudar!
- Pára de falar de Deus, cara! Eu já disse...
Dessa vez Douglas não iria deixar passar a oportunidade. Ele falou de Jesus, mesmo com a recusa do amigo, mesmo sentindo as lágrimas molharem seu próprio rosto. Ron escutou, mas não quis tomar qualquer decisão.
Douglas foi para casa. Pela manhã cedo o telefone tocou. Era Merci.
- Douglas, como você está?
- Mais ou menos. Ontem visitei o Ron, falei de Jesus pra ele. Vou visitá-lo daqui a pouco e...
- Não, Douglas. Eles o encontraram esta manhã... E-ele está... Morto. A mãe do Ron me ligou e pediu que eu lhe dissesse. Sinto muito...
- Morto? Mas... O que aconteceu?
- Não sei, ela não soube me explicar direito.
- Estou indo para o hospital – respondeu Douglas engolindo em seco. A mente distante, muito longe.
Mas quando desligou o telefone ele se deixou cair na cadeira, com a cabeça entre as mãos. Lembrou-se do rosto assustado do amigo enquanto dizia: “Cara, eu me matei...”
Ele esmurrou a mesinha do telefone . “Devia ter ficado com ele durante a noite...”
Mas agora, nada que pensasse ou fizesse mudaria a realidade. Nada traria seu amigo de volta. Ele ergueu-se devagar e dirigiu-se à porta. Agora mais que nunca, ele sabia que a droga podia se transformar numa viagem sem volta. Foi assim para o Ron.
“Puxa, Merci! Você poderia ter feito melhor!”
Merci era sua colega da igreja. Ela acabara de perder um saque.
- Vamos lá, cara! Prove isto.
Douglas voltou-se distraidamente para pegar o sanduíche que o amigo estava lhe oferecendo.
- Hã? - Aquilo não era um sanduíche. Ron estava lhe mostrando uma outra coisa.
- Você vai se “amarrar”, cara!
- O que é isso?
Seu “passaporte”. Muito melhor que um sanduíche. Vamos lá, é só tragar...
- Tô fora!
- Quê?!
- Isso é droga, cara. Não quero saber desse lixo.
- Qual é cara? Que caretice!
Douglas levantou-se, visivelmente irritado.
- Tô fora, Ron. Isso vai acabar com a sua vida. Eu quero viver, e de preferência, bem longe disso.
Douglas virou as costas e saiu. Estava meio desnorteado e bastante surpreso com sua própria raiva. “Deus, eu nem acredito. Meu melhor amigo metido com drogas!”
Ele entrou no primeiro corredor e andou sem rumo alguns instantes. A cabeça parecia querer explodir, num turbilhão de pensamentos soltos, desorganizados. “Acho que pisei na bola com o Ron”, refletiu em seguida. “Mas que raiva me deu! O cara metido com drogas!”
Alguém agarrou-o pelo braço. Era o Ron, bastante assustado.
- Fica frio, cara. Se você não gosta desse lance, vamos esquecer, tá legal?
Douglas encarou-o com sentimentos mistos de raiva, tristeza e compaixão.
- Ron, você pode optar por coisas melhores.
Ronaldo sorriu incrédulo, com um brilho opaco no olhar.
- Não se preocupe. É só curtição. Eu uso quando quero. Pra fugir um pouco das coisas... Você sabe.
Ele sabia. A mãe do amigo era uma alcóolatra e os pais estavam separados há seis meses. Não era nada fácil. Douglas encarou-o sério, tomando uma decisão.
- Ron, Deus pode te tirar dessa. Ele é o melhor amigo que qualquer pessoa pode ter...
- Sem essa cara! Bíblia pra mim, não. Eu sei o que eu tô fazendo. Esquece, tá legal?
Ele foi saindo rápido e Douglas tentou detê-lo.
- Ron, escute...
- Chega! Ron gritou e apressou os passos.
- Jesus te ama, Ron! Deus pode te tirar dessa!
Ronaldo tapou os ouvidos e começou a correr. A voz de Douglas continuou insistindo, gritando.
- Jesus te ama, Ron...
Mas ele já dobrara o corredor, desesperado. O toque de aulas soou e outros alunos encheram o corredor em direção às salas.
***
Douglas foi até o bebedouro e tomou um gole de água. Estava chateado.
- Oi, Douglas, como vai?
Era Merci.
- Oi, Merci. Estou legal. – a voz dele indicava o contrário. – Como foi o treino?
- Bem. O meu time ganhou. Você vai hoje à noite para a igreja?
- Vou sim – ele fez uma pausa – Minha aula já deve ter começado. Até a noite, então.
- Até lá!
Douglas correu para a sala de aula. Procurou por Ron. Ele não estava, e não havia sinal de suas coisas.
“Estraguei tudo!”
À noite, no culto, Douglas estava mais calado que o habitual. Quando a programação terminou, ele procurou o pastor Jonas, líder da mocidade, e teve uma longa conversa.
- Ore por ele, aconselhou o pastor. Procure aconselhá-lo, mas lembre-se: nem sempre é possível salvar um amigo das drogas. Ajude-o até onde puder e não canse de interceder a Deus por ele.
Douglas fez-lhe muitas perguntas e no final da conversa, oraram por Ron.
Ronaldo faltou à aula no dia seguinte. Douglas ligou para ele assim que chegou em casa. O próprio Ron atendeu, mas fingiu que era o irmão mais velho.
- O Ronaldo saiu, disse ele.
- Ron, é você? Douglas reconheceu-lhe a voz. A linha ficou muda por instantes.
- Você ligou pro número errado, cara! Gritou Ron com voz rouca. E desligou.
Douglas segurou o telefone mudo nas mãos. “Senhor, eu estou tentando!”
Ronaldo faltava muito às aulas e agora Douglas sabia o porquê. Uma vez encontrou-o por acaso, quando saía do colégio. Estava com os olhos muito vermelhos, um cigarro na boca e cheirava mal. Ficou tão espantado quando viu o amigo, que iria correr, se Douglas não o detivesse a tempo.
- Como vão as coisas? Douglas tentou mostrar-se descontraído.
- Tudo “maneiro”, na boa – Ron falava muito nervoso, olhando de um lado para outro, como se estivesse sendo perseguido. Depois olhou desesperado para o amigo.
- Cara, você tem um dinheiro aí? É pouco. Sabe, a minha mãe não anda legal e eu tô sem grana...
Douglas sentiu-se encostado à parede. Sabia que Ron estava desesperado pela droga.
- Não – Respondeu devagar – Gastei o dinheiro no lanche.
A expressão suplicante de Ron morreu em seu rosto. Ele cuspiu no chão e encarou o amigo com uma expressão amarga.
- Você tem sim, cara. Não quer me dar. Grande amigo você é...
Ele soltou uma série de palavrões e Douglas sentiu que as coisas não estavam nada bem.
É melhor ir embora. O Ron tá doidão...
Mas em seu peito sentia um impulso. Vontade de ajudar, tirar o Ron daquela situação. Segurou o amigo pelos ombros.
- Sai dessa vida, Ron! Existem pessoas que podem te ajudar. Jesus te ama!
- Me larga, Douglas. Eu já disse: pára com essa coisa de Deus! Me deixa, cara!
Ele empurrou Douglas e se foi.
Ron continuou faltando aula. Agora era raro ele aparecer. As notas caíram. Já se ouviam boatos por todo o colégio. Finalmente, ele abandonou os estudos. Douglas por sua vez, tornara-se apático, pensativo, angustiado. “Eu tenho que tirar o Ron dessa!”
- Tudo o que você pode fazer agora é orar – Merci aconselhava.
- Eu tentei, Merci. Fui à casa dele várias vezes, tentei conversar, levei os trabalhos do colégio... Eu tentei falar de Jesus para ele... Mas ele não me escuta, não liga!
Ele olhou abatido para Merci e sussurrou:
- Eu não conheço mais o Ron.
***
Quando o telefone tocou, Douglas reconheceu a voz rouca de Lúcia, mãe de Ronaldo. Sentiu um frio na espinha.
- Ele está no hospital. Não sei o que deu naquele inútil! Tentou se matar e agora insiste em ver você – ela disse, a voz distante.
“Inútil” - a voz ecoou na mente de Douglas enquanto se dirigia ao hospital. “Pode ser para a sua mãe, amigo. Mas não para Deus, não para mim” Depois ele ficou pensando que aquela pobre mulher também era uma escrava do vício. “Os dois precisam de Jesus”.
Douglas encontrou o amigo num leito de hospital, sozinho. Os pulsos estavam enfaixados. Ron voltou-se com os olhos cheios de lágrimas.
- Cara, eu me matei!
- Você está bem, Ron. Os médicos já contornaram a situação.
- Não. É por dentro... Eu tô acabado!
Douglas sentia um nó apertando sua garganta.
- Ron, ainda há esperança. Jesus te ama, ele pode te ajudar!
- Pára de falar de Deus, cara! Eu já disse...
Dessa vez Douglas não iria deixar passar a oportunidade. Ele falou de Jesus, mesmo com a recusa do amigo, mesmo sentindo as lágrimas molharem seu próprio rosto. Ron escutou, mas não quis tomar qualquer decisão.
Douglas foi para casa. Pela manhã cedo o telefone tocou. Era Merci.
- Douglas, como você está?
- Mais ou menos. Ontem visitei o Ron, falei de Jesus pra ele. Vou visitá-lo daqui a pouco e...
- Não, Douglas. Eles o encontraram esta manhã... E-ele está... Morto. A mãe do Ron me ligou e pediu que eu lhe dissesse. Sinto muito...
- Morto? Mas... O que aconteceu?
- Não sei, ela não soube me explicar direito.
- Estou indo para o hospital – respondeu Douglas engolindo em seco. A mente distante, muito longe.
Mas quando desligou o telefone ele se deixou cair na cadeira, com a cabeça entre as mãos. Lembrou-se do rosto assustado do amigo enquanto dizia: “Cara, eu me matei...”
Ele esmurrou a mesinha do telefone . “Devia ter ficado com ele durante a noite...”
Mas agora, nada que pensasse ou fizesse mudaria a realidade. Nada traria seu amigo de volta. Ele ergueu-se devagar e dirigiu-se à porta. Agora mais que nunca, ele sabia que a droga podia se transformar numa viagem sem volta. Foi assim para o Ron.

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