dezembro 14, 2006

26-Posso contar com você?

Sheila entrou no quarto cantando uma música de Carlinhos Félix, e jogando os livros na prateleira. Olhou para a cama e viu a carta aberta bem em cima de seu travesseiro. Aquela letra garranchenta, cheia de altos e baixos, só podia ser de Kléber, seu irmão. Fez cara de tédio. Começou a ler e sentou-se na cama. Uma ruga apareceu na testa. Ela levantou-se rápido e recomeçou a ler com voz alta, dando voltas pelo quarto:

“Procuro um amigo. Um amigo de verdade,
que saiba perder tempo comigo e não
sinta pena pelo tempo perdido. Um amigo que
me ame e me aceite do geito que eu sou.
Posso contar com você?”

Sheila parou em frente ao espelho e se olhou por um segundo. Então, seu irmão estava mesmo se sentindo só! Ele tinha dez anos, escrevia péssimo! Mas não era culpa dele. Ninguém se preocupava em lhe ajudar a melhorar a caligrafia e a gramática. Além disso, ele sempre lhe pedia para brincar com ele, ensinar-lhe a resolver as tarefas dos livros escolares que os professores exigiam todos os dias... Que saco!
Ela já tentava ser uma adolescente normal, mesmo tentando concluir o segundo grau, mesmo cuidando da avó doente, tentando arrumar emprego porque o dinheiro que tio César enviava, dava para tudo, menos para comprar seu sapato novo.
Tanta coisa assim, e nem sobrava tempo para conversar com seu irmão sobre a escola, os amigos, a vida. Sheila lembrou-se de que em muitos momentos sentia-se sozinha. Como sentia falta dos pais! Fingia levar uma vida normal, recuperada da dor que sofrera com a morte deles. Parecia adulta demais para a sua idade. Era uma dona-de-casa autêntica e antecipada para os seus dezesseis anos. Sem os pais, com a avó doente e um irmão para cuidar, aprendera a lutar cedo pela vida. Não pensara muito em seu irmão. Parecia até, que ele não sofria, não passava por tantos problemas como os que ela costumava passar.
Havia tempo para a igreja, a Escola Dominical e para os seus alunos pequenos, um pouco mais novos que o seu irmão. Havia tempo para ouvir um pouco de música e conversar com os amigos nas horas livres. Mas não havia tempo para Kléber.
Ela olhou novamente para a carta. “Ele só quer que eu seja sua amiga. Quem, neste mundo inteiro, escolhe um irmão mais velho para ser seu amigo?” Ao pensar em seus próprios momentos de solidão, tristezas e necessidade de compartilhar esses momentos com as amigas, Sheila concluiu que podia muito bem entender seu irmãozinho.
Olhou para a sua Bíblia na cabeceira da cama e para o versículo que havia grifado, ao ler pela manhã: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo (Mc 12.31). Kléber era seu próximo. Talvez o mais necessitado de seu amor e ela sabia que podia amá-lo com toda a força do seu coração e ajudá-lo em seu momento de solidão.
A porta do quarto abriu-se e seu irmãozinho colocou a cabeça na brecha. Ela sorriu para Kléber e o encorajou a entrar.
- Vem cá, me dá um abraço! Olha, eu li sua carta. Precisa melhorar a letra. Eu vou comprar caligrafia pra você e vou lhe ensinar gramática. Ah, pode contar comigo, sim! Pro que der e vier. Amigos?
- Amigos! – E o garotinho sorriu de felicidade.