dezembro 14, 2006

36-Um natal feliz

O carro corria velozmente pelas avenidas da cidade. A pequena Paula deixava-se levar por pensamentos tristes e amargos repetindo para si mesma, que a felicidade não existia.
Quando o carro parou em frente a casa de sua tia, ela olhou em volta e sentiu uma lágrima deslizar em seu rosto. “Se mamãe me amasse!”
Tia Ana abriu a porta, e, ao vê-la chorando abraçou-a.
- O que foi, meu anjo?
Paula olhou para ela e permaneceu em silêncio enquanto aconchegava-se mais no abraço carinhoso que a bondosa senhora lhe oferecia.
- Onde está sua mãe? Perguntou Ana.
Paula sacudiu os ombros, como a dizer: “que importa?” Provavelmente estaria trancada no quarto, um pouco mais feliz por tê-la distante. Ana compreendeu o silêncio da sobrinha. Abraçou-a mais fortemente e a fez entrar.
“Pobrezinha”, pensou. “Tão criança e já sofre tanto!” Pensou em sua irmã, Laura, que entregara-se totalmente ao desespero e à depressão, logo após a morte do marido. Ela não conseguia suportar sua própria filha que, aos doze anos, precisava tanto de seu amor. Por isso, a enviara para morar com a irmã, a pretexto de passar algum tempo sossegada.
Os dias se passavam, e Paula parecia adaptar-se à nova situação. Sorria com mais freqüência e não escondia seu carinho e admiração pela tia, que a tratava tão bem e com tanto amor.
Certo dia, porém, Ana encontrou-a pensativa e triste.
-Sabe, tia, às vezes eu sinto uma angústia no meu peito. Queria ser feliz, mas não consigo, mesmo aqui, com você. Tenho medo de que as pessoas não se importem comigo, não me amem, não me queiram por perto...
- Minha querida, não fique assim – falou tia Ana – Há alguém que se importa com você.
Paula sorriu.
- É você!
- Não, não sou eu. Na verdade, me importo muito com você, e a amo, mas a pessoa de quem estou falando importa-se muito mais.
Paula ia perguntar-lhe quem era essa pessoa, quando a campainha tocou. Imediatamente, Ana lembrou-se de que iria receber visitas e a conversa não pôde ser concluída. Eram as amigas de Ana e a pequena Beatriz, que também viera. A neta da senhora Olívia morava nas proximidades. Ana saudou-as alegremente e apresentou Paula a Beatriz. As duas puderam entender-se rapidamente e não tardou para que se tornassem inseparáveis. O fato de Beatriz morar próximo à casa de Ana, contribuía muito. Além disso, havia a igreja aos domingos e outros dias da semana. Mas nem sempre Paula gostava de acompanhar sua tia à igreja.
Foi na igreja que Paula ouviu falar sobre Deus e descobriu ser ele, a pessoa de quem tia Ana lhe falara um dia. Mas não gostava mais de conversar com sua tia sobre isso. Desde nova, ouvia sua mãe reclamar de Deus, dizer que ele não existia. Ela também não gostava dEle. “Não deve ser um Deus bom. Se fosse, minha mãe não me trataria assim, e seríamos felizes”. Ana tentou conversar com Paula sobre o Deus de amor, criador de todas as coisas, mas a garota só ficava mais aborrecida e não queria ouvir. Tudo o que sua tia podia fazer, era continuar orando e levando-a para a igreja.
Ana fazia visitas freqüentes à sua irmã. Nessas visitas, falava de Deus para ela, lia trechos da Bíblia e insistia para que Laura fosse à igreja. Numa dessas visitas, Ana chegou a perguntar, se Laura sentia-se bem, longe de sua única filha adolescente. Mas Laura continuou apática, enquanto suspirava sua resposta:
- Um pouco intranqüila, minha irmã. Você deve saber que eu realmente não desejei que as coisas fossem assim. Infelizmente, desde que meu marido morreu, Paula tem se tornado uma garota insuportável.
- Não ponha a culpa de seus problemas em sua filha, Laura! – Ana suplicou –Isto é errado. Sua filha é apenas uma criança passando para a fase da adolescência e precisa de você. E você, Laura, além do amor de sua filha, precisa de Deus. Já lhe ocorreu, que se deixar Cristo entrar em seu coração e dirigir a sua vida as coisas serão diferentes?
Laura não respondeu. Como sempre, mudou de assunto e quando Ana insistiu, queixou-se de forte dor de cabeça. Ana retirou-se triste, mas com a certeza de que agora o assunto estava nas mãos de Deus. Ela continuaria orando e esperando.
Faltava um dia para o natal. As orações de Ana estavam surtindo efeito, pois Paula agora demonstrava maior interesse pelas coisas de Deus. Fazia perguntas e gostava de ouvir os comentários e histórias da Bíblia. Para felicidade de Ana, também Laura estava começando a ouvir seus conselhos com mais atenção.
O dia vinte e cinco de dezembro amanheceu. As ruas, que desde a véspera estavam enfeitadas, agora pareciam reluzir ainda mais em sua beleza. A noite aproximando-se, tia Ana, Paula, Beatriz e D. Olívia sentaram-se na sala, e tia Ana, como sempre fazia naquela horário, tomou a Bíblia nas mãos e leu o trecho que fala do nascimento de Jesus. Com seu jeito prático e didático de falar, explicou a Paula o verdadeiro sentido do Natal.
Paula sentiu-se profundamente tocada pelo amor de Jesus, com Seu jeito sublime. Ana então, perguntou-lhe se ela não gostaria de abrir seu coração para Cristo.
- Gostaria muito, tia Ana. Mas pioraria minha situação. A senhora sabe que a minha mãe detesta os crentes...
- Bem, se é isto que a preocupa... – e tia Ana fez um ar de mistério – vou dizer-lhe o que antes seria uma grande surpresa: sua mãe telefonou dizendo que vem nos visitar esta noite, e irá à igreja conosco. Isso não é tudo: ela aceitou o meu conselho, o Espírito de Deus operou em sua vida, e o resto você vai saber quando ela chegar.
Paula quase não conseguiu acreditar. Como recusar então, o convite de amor de um Deus que podia tudo, inclusive, transformar sua mãe? Ela sentiu que podia crer nas promessas de Deus. Ele jamais a desampararia.
A campainha tocou. Paula abriu a porta, e foi com lágrimas nos olhos que deixou-se abraçar por sua mãe. Diante daquele quadro feliz, em que mãe e filha se reconciliavam, Ana ergueu a voz em oração e todos puderam sentir o olhar e a presença irradiante do filho de Deus.