dezembro 14, 2006

29- Devagar, querida...

Milena estava em pé junto ao espelho grande do quarto. De costas, com o pescoço voltado para o espelho, tentava mirar-se de todos os ângulos. Fez uma careta quando acabou e balançou o pescoço massageando-o com as mãos.
“Liana disse que estou em forma. Mas será que o Pedro vai notar?”
A saia curta, justíssima, fazia destacar as curvas quase perfeitas da garota de 15 anos. Ela mirou-se no espelho mais uma vez.
Milena não esqueceu um detalhe sequer da maquiagem do rosto. O batom bem vermelho, os cílios pretos e bem separados pelo rímel, a sombra azul cintilante, o blush rosado, constrastando um pouco com sua pele. Depois de contemplar-se mais uma vez, ela pegou a Bíblia e foi para a sala onde seus pais, Eduardo e Mônica a esperavam impacientes.
Milena passou rápido pelos pais, cabeça baixa, retirando um cisco inexistente dos olhos. Mas isso não impediu Mônica e Eduardo de perceberem o tamanho e o ajuste da saia da garota.
- Milena, volte aqui um minuto – o pai chamou.
- Ah, pai, estamos atrasados para o culto... – disse a garota, tentando abrir a porta do carro.
- Filha, você ouviu seu pai! – A voz de Mônica era inconfundível, mesmo soando calma.
- Já vou, já vou!
“E agora? Aposto que vão reclamar da minha saia e da maquiagem”.
Milena retornou à sala. Os pais se entreolharam atônitos com o “novo” visual da filha. Eduardo tossiu, antes de falar:
- Minha filha, que roupa e... que maquiagem é essa?
Um brilho de desafio apareceu no olhar de Milena.
- Ora, pai! É a minha roupa, e a minha maquiagem!
- Minha filha, não acha que está exagerando? Esta saia está curta e apertada demais, e esse seu rosto... está...
- Um pouco exagerado, querida! – Completou Mônica.
“A Liana disse que ficava ótimo assim, chamava a atenção mesmo...” Milena começou a sentir-se
insegura. Mas não deu o braço a torcer.
- É porque vocês estão com ciúmes. É isso! Não vê que eu cresci, pai? Não sou mais uma criança!
Se fosse a mamãe, você estaria elogiando. Pra vocês, nunca estou bem o suficiente!
Eduardo sorriu para a filha e colocou a mão em seu ombro, observando que algumas lágrimas teimavam em rolar pelo rosto da garota.
- Querida, vá devagar! Nós a amamos e queremos o melhor para você. Você é uma garota linda, maravilhosa e não precisa de recursos como esses para provar isso. Não é a saia curta que a tornará mais linda... Nem essa maquiagem pesada. O seu sorriso e o seu jeito de ser, alegre, refletindo Jesus, são muito mais atraentes!
- Mas não tem nada demais, pai! – Milena tentava enxugar o rosto, já manchado pelo rímel preto.
- Não tem nada demais, que você ponha uma roupa bonita, porém adequada, e acessórios para realçarem sua beleza mas não alterá-la. Eu sei que você está crescendo, e já não é mais criança, mas vá devagar, filha. As coisas devem acontecer no tempo certo. Viva a sua idade, o momento presente, sem querer apressar as coisas.
Eduardo abraçou a filha com carinho e tentou enxugar-lhe o rosto. Mônica aproximou-se com um guardanapo e beijou a filha também.
- Milena, é melhor você voltar ao quarto e lavar o rosto. Sua maquiagem caiu por terra em poucos minutos!
Milena concordou. Voltou ao quarto, trocou a saia, lavou o rosto e aplicou um leve pó facial. Acabara de aprender que a beleza natural, sem exageros, não desaparecia com algumas gotas de água.

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