dezembro 14, 2006

15- Se um membro sofre...

“Tlim, tlim, tlim!”
- Alguém aí pode atender o telefone? – Gritou o irmão Augusto do banheiro.
“Alguém?” – pensou Débora enquanto se dirigia apressadamente à mesinha do telefone – “Só eu posso atender telefone nesta casa!”
Débora atendeu o telefone, chamou seu pai e foi para o quarto terminar de calçar o tênis. Penteou o cabelo e olhou-se no espelho. Tudo bem. Aliás, quase tudo... Aquela saia “quase varrendo o chão” não era preferência dela, e sim da Sra. Fátima, sua mãe.
- Débora! Vai chegar atrasada ao Colégio!
- Estou indo, estou indo, mãe!
A porta bateu com força atrás dela, quando finalmente saiu de casa para a escola. Não demorou muito, e alguém puxou seu cabelo com força.
- Aaaai...! Júnior!
O irmão detestado da garota fizera mais uma das suas e já estava a salvo, metros à frente, sorrindo dela.
- Eu só quis dizer “bom dia”, sua chata!
Tentando não chorar de raiva e por causa da dor, Débora limitou-se a xingar o irmão mentalmente com todas as palavras que lhe acudiram no momento – nem tão santas assim! O dia estava começando muito mal. A chateação da mãe logo cedo, o telefone tocando justo na hora em que ela se arrumava para ir à escola, o atraso, o irmão insuportável...
“Só me falta um zero na prova de hoje!”
Na escola, Débora esqueceu as chateações de casa. Aquele era um dos dias mais puxados da semana. Passara o dia no colégio, envolvida com as atividades de educação física e pesquisa. Mas no fim do dia, ao ir para a casa, já foi enchendo a cabeça de pensamentos vingativos em torno do irmão e preparando respostas afiadas para dar aos pais, caso eles começassem com as provocações rotineiras.
Uma ambulância passou aflita tocando a sirene. Débora prestou pouca atenção. Dobrou a rua que dava para a sua casa e seguiu em frente. Já foi ficando vermelha de raiva quando viu as luzes da casa apagadas. Não havia ninguém!
Débora chamou sua vizinha. Mas não havia ninguém na casa de D. Marta. Débora sentou-se na calçada com cara de tédio, chateada demais por ter que ficar na porta de casa, sabe-se lá até que horas! Meia-hora depois chegou D. Marta com um sorriso amarelo no rosto.
- Oi, filha. Venha aqui para casa...
Débora foi soltando logo a língua, xingando a demora dos pais. Nem o Júnior estava em casa, logo ele que largava mais cedo dia de hoje. No mínimo estava batendo bola com os amigos...
- Débora, seus pais precisaram sair com urgência porque aconteceu uma coisa...
D. Marta torcia as mãos nervosa. Débora ficou em estado de alerta, já preocupada.
- O que foi, D. Marta?
- É que o Júnior... Ele sofreu um pequeno acidente quando voltava do Colégio. Um carro bateu nele...
- Ai, meu Deus!
Débora começou a chorar, super nervosa. “Jesus, me perdoe. Ai, eu não queria que isso acontecesse...”
- Calma, filha. Seus pais estão com ele no hospital. Parece que ele sofreu apenas uma fratura na perna. Eu posso levar você até o hospital para vê-lo.
Agora, sim! Débora engoliu a língua e ficou calada durante todo o trajeto. Na sua mente só via o Júnior puxando seu cabelo, rindo malvado da dor dela... Mas não sentia raiva. Sentia medo. Lá no fundo, veio um desejo grande de ver o irmão sorrindo de novo, mesmo que fosse dela! Apesar de tudo, era seu irmão...
Pensou nos pais. Como deveriam estar aflitos. Lembrou-se então daquele versículo bíblico: “De maneira que se um membro sofre, todos sofrem com ele...”
D. Marta estacionou em frente ao hospital. Desceram em silêncio e ficaram aguardando na sala de espera. Depois o pai de Débora apareceu. Ela correu para ele e o abraçou.
- Pai, e o Júnior...?
- Ele está bem, filha. Só fraturou a perna. Vamos vê-lo?
Quando abriu a porta do quarto, Débora viu a mãe sentada perto da cama e o irmão deitado com uma perna toda enfaixada. Ele sorriu um pouco sem graça para a irmã. Débora correu para ele e o abraçou com força.
- Ai, sua chata! Pára de me agarrar...
Débora riu alto. Nada lhe faria ter raiva de Júnior agora.
- Ô maninho, fiquei tão preocupada!
- Imagino...
- Graças a Deus, você está imobilizado o suficiente para que eu me vingue pelo que você me fez hoje à tarde...
O rosto de Júnior estampou todo o seu desespero.
- Débora! – os pais acudiram de imediato.
Mas não foram tão rápidos. Débora já agarrara-se ao pescoço do irmão, pregando-lhe um grande
beijo no rosto, com força.
- Ai...!
- Se um membro sofre, todos sofrem com ele! – Ela recitou o versículo.
Passado o susto, Júnior sorriu e criou coragem para corresponder ao abraço da irmã. Daquele
abraço em diante, estavam unidos para sempre... Quero dizer, nem tanto assim... (Ah, se você tem irmãos, sabe do que estou falando, não é?)