novembro 29, 2006

A filhinha do papai

Renata estava sentada a um canto do sofá, um tanto ruborizada, enquanto todos os olhares voltavam-se para ela. Haviam sorrisos de elogio. O motivo? Seu pai, o bom irmão Rodrigues, acabara de dizer que ela era a “filha que pedira a Deus, uma bênção!”
Alguém podia dizer: “Claro, filha única!” Mas a razão não era essa. Renata era a boa menina do papai. Tão querida, meiga, obediente e comportada! Um modelo de filha... Aos olhos do pai.
A verdade, no entanto, era bem outra. Renata, órfã de mãe, morava com o pai e uma tia. Ela era cristã, como toda a sua família. Mas seu comportamento... Bem, em casa e na igreja ela era um anjo. Que garota maravilhosa!
No colégio, porém, ninguém reconheceria na Renata, a boa menina. Conversava o tempo todo na aula e, ao juntar-se com o grupo “barra pesada” da turma, não se parecia em nada com uma garota cristã. Os palavrões que dizia juntamente com os colegas, as bijuterias e a maquiagem extravagante que usava (escondida do pai, é claro! Já que ele achava um absurdo e proibia a filha de andar assim), o seu modo de agir, faziam acentuar a farsa em que ela vivia. Aliás, no colégio, ninguém sabia que ela era crente. E assim vivia Renata, em sua vida dupla.
E você me pergunta: “Como é que a Renata conseguia ser duas pessoas ao mesmo tempo, sem ninguém desconfiar?” Deixe-me explicar: as notas de Renata não eram tão baixas assim. Ela até tirava dez em algumas matérias. Ou “colando” dos colegas, ou estudando um pouquinho aqui e ali, suas notas eram razoáveis. E na igreja ela também dava conta do recado. Cantava no grupo de adolescentes, freqüentava a escola dominical e os cultos normais.
Mas as coisas nem sempre ficavam no controle e Renata começou a perceber isso. O primeiro sintoma de que nem tudo estava bem, foi a primeira nota baixa em História. Imagine! Só “decoreba”, e Renata tirou nota 5,0! É que ela preferiu passear durante a semana da prova, em vez de estudar.
O pai de Renata não resmungou nada. Afinal, sua filha ia todos os dias à casa de Arlete estudar para a prova de História que seria na sexta. E agora, como explicar aquela nota? Era um sufoco. O segundo, foi que os professores começaram a reunir-se para discutir o comportamento de Renata.
- Na última aula ela me chamou de “balofa”, na frente da turma! – Dizia a professora de inglês (que era um pouco obesa) aos colegas, indignada.
Alguma coisa tinha que ser feita! Todos concordaram. Resolveram que estava na hora de ter uma conversa com o pai de Renata, já que a garota era “impossível”. Ela não os escutava.
Então começaram a enviar bilhetinhos para o pai de Renata. Mas o Seu Rodrigo não aparecia. Renata dava fim aos bilhetes e o pai continuava com a ilusão de ter uma boa menina em casa. A Direção da escola resolveu ligar. No começo foi difícil. Renata corria na frente da empregada e atendia a todos os telefonemas. Assim, o pai continuava sem saber de nada. Até que um dia, Renata foi à praia com suas amigas no final de semana, e a diretora resolveu ligar. É claro que o seu Rodrigues atendeu e ficou cho-ca-do!
Quando chegou à casa bronzeada, Renata deparou-se com um pai decepcionado e vermelho de raiva. Sua filha não era o que ele pensava. Aí, pela primeira vez na vida, Renata teve um bate-boca com seu pai e se trancou no quarto.
Que raiva daquela diretora! Renata resolveu ligar para Arlete, a amiguinha de classe.
- Arlete, meu pai descobriu tudo!
- Tudo o quê, Renata?
- Ai, Arlete! Tudo! A nota baixa, a briga com a professora de inglês... Ele disse que os professores o convocaram para uma reunião.
- Xi! Menina, você tá na pior! Mas não esquenta, não – disse Arlete – isso passa. Depois ele acostuma. O meu pai no começo era uma fera. Mas agora... Ele sabe que eu sou assim mesmo!
Essa Arlete não sabe de nada, pensou Renata. Melhor desligar.
- Tá bom, Arlete, eu só liguei pra te contar.
Ela ia desligar, mas Arlete lembrou de mais uma coisa.
- É verdade que você é crente?
- Euuuuuuuuuuu...? – Renata engasgou – Imagina! Quem foi que inventou essa “barbaridade”?
- Inventou nada! A Angélica te viu na igreja domingo passado. Ela disse que foi com a avó que é crente e te viu de longe, só que não deu pra falar com você.
E agora?
- Eu acho que ela viu alguém parecidíssima comigo, mas não era eu não...
- Era sim, Renata! A Angélica não mente e a turma toda já sabe. Prepare-se, que na segunda-feira vão pegar no seu pé. Que crente você é, hein?
Arlete soltou uma risadinha e desligou.
Agora, sim! Tudo estava perdido. Renata estava mesmo em maus lençóis. Ela voltou para o quarto e caiu na cama em prantos. Lembrou-se do salmo 1.1:
Bem-aventurado o varão que não anda segundo o conselho dos ímpios, nem se detém no caminho dos pecadores, e não se assenta na roda dos escarnecedores
O que fazer? Ela seguira mesmo a Cartilha Errada. Que tristeza! Renata lembrou-se da professora da escola dominical.
Eu preciso falar com ela!
Vestiu-se rápido e ligou para Clarice, avisando que precisava vê-la com urgência. Foi saindo e encontrou o pai na sala.
- Pai, vou à casa da professora Clarice.
Era perto, no outro quarteirão. Seu Rodrigues ainda estava chateado e perguntou com ar de incredulidade e ironia:
- Será que vai mesmo? Não está pensando em sair por aí com suas amiguinhas?
Renata ficou chocada e seus olhos encheram-se de lágrimas. Seu pai nunca duvidara dela. Mas antes que ela dissesse qualquer coisa para se defender, ele sacudiu as mãos:
- Pode ir... Mas volte logo.
Renata viu o jeito abatido do pai e sentiu-se terrivelmente culpada. Queria abraçá-lo, prometer que nunca mais iria decepcioná-lo, mas havia um nó na garganta e ela, sem dizer nada, saiu. Quando chegou à casa de Clarice estava quase soluçando. Sem esperar qualquer pergunta, ela contou toda a verdade.
- E agora, Clarice, o que eu faço?
- Sua história é muito triste, Renata. Você enganou até a mim. Mas agora você sabe quão verdadeiras são as palavras bíblicas: ”Não há nada encoberto no céu e na terra.” Nosso Deus é justiça, mas também é amor, Renata. Você já pediu perdão a Ele?
- Estou arrependida, mas ainda não orei sobre isso, nem pedi perdão ao meu pai.
- Então vamos falar com Deus e depois você vai ter uma conversa com o irmão Rodrigues.
As duas ajoelharam-se e Renata confessou seu erro, prometendo mudar de vida e acabar de vez com sua farsa.
Ao chegar a casa, Renata encontrou seu pai ainda chateado. Dessa vez ela teve coragem:
- Pai, me perdoa... Prometo que não vou mais mentir, nem decepcioná-lo. Nunca mais!
Seu Rodrigues deu um suspiro longo, passou-lhe um “sermão” e por fim, abraçou-a oferecendo-lhe seu perdão.
Duro, foi enfrentar os amigos da escola na segunda-feira seguinte. Mas Renata aprendeu que não valia a pena abrir mão de ser um cristão de verdade e isso foi de grande ajuda para encarar a turma e mostrar que estava disposta a ser diferente.